Thursday, May 25, 2006

Código? Onde?!

A grande, e inútil, discussão travada desde o lançamento do livro O Código Da Vinci é, na verdade, um retrato ampliado da eterna pendenga “cultura x erudição x cultura pop”.

Como se o ideal fosse estar preso num dos protagonistas desta celeuma, em vez de mesclar determinados limites e elementos para que fossem formadas opiniões se não mais embasadas, ao menos mais livres de pré-conceitos.

O Código Da Vinci não é, nem nunca será, cultura no sentido erudito do termo. É superficial, evasivo e serve com muita classe a tudo que se propôs como um elemento de cultura pop: vender e causar polêmicas vazias.

Acreditar, por exemplo, que Jesus teve um romance com Maria Madalena, além de não manchar em nada o legado de sua pregação, não fere nenhum dogma da Igreja Católica pelo simples fato de isso nunca ter representado um dogma para ela.

A Igreja, aliás, sai ilesa da guerra de informações contra o romance. Tratada de forma respeitosa e sem generalizações, é quem menos deveria reclamar. Já à Opus Dei ficou reservado um lugar junto à Maçonaria, no rol de especulações e ilações difusas sobre instituições.

Por outro lado, tal informação, tão antiga quanto a mania de conspirações deste mundo helênico-judaico-cristão, soa como manchete requentada a quem se deteve num mínimo de interesse pela história do catolicismo.

O sucesso de O Código Da Vinci é, portanto, proporcional a sua superficialidade com toques de Indiana Jones em slow motion. Nenhum dos temas abordados é novidade, mesmo para quem não leu o livro mas viu o filme.

O mérito de Dan Brown, autor do livro, é ter levado a milhões de maus leitores – listam-se aqui “n” motivos pelos quais se lê pouco e mal, por exemplo, no Brasil – um roteiro hollywoodiano com a falsa impressão de ser cultura da mais erudita, e mais, mexer com um misticismo que, queira ou não, faz parte do nosso dia-a-dia e da nossa formação cultural.

Priorado de Sião, Templários, Santo Graal, Opus Dei, Maria Madalena e tantas outras lendas e informações atravessadas sobre coisas pouco conhecidas – muitas vezes mais por incapacidade investigativa e intelectual do que por ausência de elementos comprobatórios – carecem de um roteiro policial para que sejam assentados no senso comum, para que se desperte a paixão da maioria dos leitores.

No entanto, não vamos cair no erro de achar que se deve ler com um único intuito de se tornar alguém culto e erudito. A leitura deve ser algo prazeroso, o que implica a diversão individual. Nada contra o prazer da leitura, mas é preciso desenvolver a capacidade de filtrar o que se lê, de absorver o conteúdo com limites.

Muito antes d’O Código Da Vinci, Umberto Eco escreveu, ainda na década de oitenta, O Pêndulo de Focault. Como é tradição nos livros de Eco, os temas são abordados de maneira criteriosa, investigativa e, mesmo quando envoltos pela ficção, baseados em fatos comprováveis e em exaustivos estudos.

Por que, então, O Pêndulo de Foucault não fez tanto ou mais sucesso que O Código Da Vinci? Pela falta de acessibilidade à maioria das pessoas. Para níveis medianos ou intenções de mera diversão, estudos aprofundados são sempre chatos e tediosos. Não é o caso d’O Código. Imagine Jesus, Madalena, Isaac Newton e Amélie Poulain no mesmo barco. Vale ao menos uma espiadinha.

A mistura de narrativa de vídeo-clipe com personagens saídos de um filme estrelado por Bruce Willis ou Morgan Freeman (nas suas concessões duvidosas em filmes policiais), torna-se muito mais atraente do que informações levadas às últimas conseqüências do academicismo.

O Pêndulo é cultura, O Código não. Um informa, outro apenas diverte – o que não quer dizer que o primeiro não divirta. O lado negativo é dar ao leitor a impressão de ter repassado, em cada página, fatos concretos, subjugados pela retórica e pela sedução do tema.

Cabe ao autor um mínimo de responsabilidade. Ao leitor, bom senso e informação. Bom senso para concordar que o filme nada mais é do que o retrato fiel do livro. As arestas ficam por conta da capacidade imaginativa de quem lê, moldando cada personagem ao seu bel prazer e, claro, ignorando as falhas gritantes de um roteiro que não soube reaproveitar personagens e ganchos excitantes.

Tom Hanks, como o investigador Robert Langdon, e Jean Reno, como o policial Bezu Fache, beiram o ridículo em suas atuações. Basta ver a expressão de Hanks ao informar à eterna Amélie, Audrey Tautou, que ela é a descendente de Cristo. A expressão cairia bem ao ex-Forrest Gump caso dissesse que havia derrubado um pacote de biscoitos.

O Bispo Aringarosa, vivido por Alfred Molina, chega a nos compadecer com sua imagem perdida, ausente, como se tivesse acabado de passar na calçada do estúdio e fosse raptado para filmar no set.

O didatismo do filme irrita, mas levando em consideração a quantidade de pessoas que não leram o livro e, mesmo assim, foram incensados por sua repercussão, vê-se a utilidade da estratégia. E convenhamos, foi uma boa idéia ver alguns fatos do passado retratados como em “hologramas” nas cenas atuais.

O mais enfadonho, e é aí que se comprova a superficialidade com a qual os temas do livro são abordados, é justamente a reviravolta à espreita em cada cena. Alguns personagens, como Leigh Teabing, vivido pelo competente Sir Ian McKellen, parecem ter sido jogados dentro da trama apenas para validar as explicações mirabolantes que o autor tem a dar como se fossem fatos.

Ironicamente, é de McKellen a atuação mais caprichada. O roteiro não acompanha, nem de longe, a quantidade de informação à disposição do leitor/espectador. Damo-nos conta disso quando percebemos que, em poucas horas, Langdon saiu de uma palestra bem interessante sobre simbologia para descobrir um grande mistério da humanidade, ali, bem embaixo dos seus pés.

Se as quase três horas de filme cansam, vale como consolo a sequer cogitação de Peter Jackson na direção. Imagine uma corrida de dinossauros no Louvre. Por Alá, o que sobraria da Monalisa?

No mais, saímos do cinema, mesmo após o afinco com que os protagonistas se dedicam ao tema, sem saber de muita coisa. O que Leabing afirma, Sophie repete, Landgon duvida, mas no fim todos concordam.

Vale pelas seqüências no Louvre, pelo detalhe de algumas obras de arte, mesmo acompanhadas de uma trilha sonora claudicante. Além, claro, da certeza de que o albino autoflagelante com lentes de contato azuis e cabelo descolorido com água oxigenada é primo legítimo do diabo retratado em A Paixão de Cristo, de Mel Gibson.

Mas aí são outros quinhentos. E, obviamente, milhares de possíveis teorias conspiratórias. Fetiche de usuários do Google. O Código Da Vinci não é nada mais do que isso. Mas se você se diverte, enfim, que problema há nisso?

Wednesday, May 17, 2006

Fio a fio

- É curioso. Ou não. Mas eu só consigo perceber o avanço da medicina quando faço uso de corticóides e/ou antibióticos. Estive num desconforto imenso esses dias por causa de uma infame virose. Poucas horas depois de aplicá-los, podia jurar que nada havia me ocorrido. Corticóides e antibióticos. Pelo conforto e rapidez nos efeitos, são na minha mente mazelada o que há de mais moderno na medicina.

- É estranho como há algo dentro de mim que às vezes comemora o número de suspeitos mortos no conflito da polícia com o PCC em São Paulo. Mas não posso dar espaço a isso. Seria legitimar a barbárie, justificar o caos com mais caos. Pena de morte? Bobagem. Qualquer bandido já sai de casa todos os dias com a sentença de morte anunciada na testa. A morte é rotina pra eles. Não surte efeito legalizá-la.

Por mais assustador que seja ver uma foto da Avenida Paulista vazia às oito da noite, não deixa de ser interessante ver transferida a realidade de qualquer periferia dominada pelo crime para o centro financeiro do país, onde se decidem muitos futuros, inclusive o da periferia. O que se viu na Paulista é o que se vê em qualquer favela com toque de recolher corriqueiramente.

Ler Mônica Bérgamo relatando a decepção do high society paulista por ter que adiar algumas festas caríssimas e perder algumas garrafas de champagne que já estavam "no gelo" em plena crise é perceber o fosso em que nos encontramos. Não pelo ato de relatar, mas pelo que se relata.

Ricaços, façam alguma coisa! Não se vive por muito tempo encastelado num mundo paralelo. Um dia eles vão sair dos buracos, descer dos morros e mostrar o que nós produzimos com tanta indiferença. E pior: que não há nada mais democrático no mundo do que o medo.

- Como pinto no lixo. Tá certo que com um atraso de meses em relação aos grandes cinemas do país, mas e daí? De uma tacada só: "Boa Noite, e Boa Sorte", "Todas as Crianças Invisíveis", "Missão Impossível III", "Match Point - Ponto Final" e revi, com a "administradora", "Terapia do Amor". Vamos aos fatos:

* Boa Noite, e Boa Sorte: Filmaço. Perdi de vez os últimos décimos de preconceito contra Clooney. O filme é um primor de direção, fotografia, direção de arte. Tudo muito caprichado, com ótimas edição e montagem, sem contar o roteiro impecável. Vá lá, fatos como os retratados ajudam e muito, mesmo assim não sobrepõem a boa produção.

Os editoriais de Edward Murrow contra a inquisição moderna americana parecem ter sido escritos ontem. O que prova mais uma vez, que os problemas são sempre os mesmos, só mudam de cor e tamanho. Cor aliás, que dá um charme noir a película.

O que se retrata no filme é mais uma prova de como apesar de tudo e todos, há nos EUA uma capacidade de mudança e síntese de idéias fantástica. Faz-se das piores coisas, critica-se com a maior das classes. Ah, e ainda tem Ava Gardner...

* Todas as Crianças Invisíveis: Cansativo. Sete curtas metragens mostrando situações dolorosas para crianças ao redor do mundo. Spike Lee cru como sempre, mas com um ar amadorístico na produção, dispensável. Não usou o aparato caprichado dos Scott Brother's, mas poderia ter lançado mão, não tiraria a lascinante idéia do seu roteiro.

Esperei mais de Kátia Lund. Não por "Cidade de Deus", mas pelo leque de opções que o Brasil oferece nesse campo.

Gostei de Emir Kusturica. Fanfarrão, lúdico e sabendo usar o humor para mostrar a dor. John Woo é piegas de dar dó. Pouco recomendável para diabéticos o roteiro dele. O que poderia ser caprichado, virou brega de doer. O que não acontece com Stefano Veruso, o diretor italiano. A história de Ciro além da belíssima fotografia, tem bom roteiro e um protagonista promissor.

* Missão Impossível III: Melhor que o anterior da trilogia. Philip Seymour Hoffman impecável. Tom Cruise com alguns tiques nervosos que sobraram de Guerra dos Mundos. Pra quem quer ação, não há do que reclamar. É barulho pra dar e vender, sequências muito bem sicronizadas e uma cena irada: Cruise lendo os lábios do seu superior. Pipocão dos bons. Não tem arte, não tem explicações filosóficas, clichê do início ao fim, mas é a isso que se propõe o filme, não é mesmo?

* Match Point - Ponto Final: Acho que nunca vi Allen tão à vontade filmando fora de NY. A viagem que a câmera faz por Londres e seus lugares não-turísticos, comuns a quem vive lá é saborosa. Assim como Scarlet Johansson, transbordando lábios, peitos e calor. Um duelo constante e prevísivel - nem por isso menos charmoso - do mais apurado conservadorismo inglês, com o despudor americano. Quase uma Jane Austen envenenada em sua luta romântica de classes.

O roteiro é bem "novela da Globo", tramas previsíveis, mas sempre com o humor ácido de Allen pondo o dedo em riste na cara de alguém. As mulheres podem sair do cinema putas com a forma que são retratadas: histéricas, burras e descontroladas. O final vale o ingresso. É Allen, por menos grandioso que seja como antigamente, antes ele do que qualquer roteiro vagabundo por aí.

- Washing Machine, do Sonic Youth, é das coisas mais sublimes que uma banda poderia ter produzido em cinco décadas de rock and roll.

- Frederic Boilè, o francês dos mangás mais charmosos do mundo volta com tudo em "Garotas de Tóquio". Vale o investimento. Caso ainda não conheça o cara, comece por "O Espinafre de Yukiko". Putarias orientais e bolinações discretas.

- Sim, vou ver "Código Da Vinci" sexta-feira.

- Compre, baixe, faça o que for mas não deixe de ouvir: The Back Room - Editors, Versus - Kings of Convenience.

Extra: E já que eu falei do Sonic Youth, por que não ouvir a melhor música do disco Washing Machine?
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    Saturday, May 13, 2006

    Delay

    Bom, com um atraso de uma semana resolvi fazer algumas considerações sobre o último dia do MADA 2006 e o festival todo, mais como expectador do que jornalista.

    No geral acho que o evento chegou a um tamanho e formato ideais e invejáveis, e que deve crescer pouco além disso. Já consegue romper a barreira de ser mídia espontânea facilmente, atrai atenção de muita gente de várias partes do país e conserva problemas provincianos.

    Entre os tais problemas, um local que apesar de enorme e agradável - ao lado do mar é realmente para poucos - é um buraco, literalmente, irregular, sem locais para pôr lixo e com qualqier chuva o que era areia e barro vira lama num estalo de dedos. Eu sei que quem tá no rock é pra se fuder, mas não custa nada ter um mínimo de conforto.

    Um outro ponto negativo, e que me desperta graves e sérios instintos terroristas são os camarotes. Se bem que muitas vezes eu acho essencial um camarote. De verdade: odiaria dividir o mesmo metro quadrado com as mazelas que povoam esse chiqueirinhos modernosos.

    É uma tremenda falta de respeito com as bandas, e com o próprio festival, independente, ter um camarote com um som na mesma altura física do palco principal, espalhando um imundo bate estaca como se no restante do evento não estivesse acontecendo nada.

    O camarote do patrocinador é mais que compreensível, e educado, diga-se de passagem, mas o seguinte merece ser TRITONrado, ou então, já que o DJ é o que mais importa, com a abertura virada para a tenda eletrônica. Aliás, o que importa ali além da pose e do desfile?! Camarote Sucks! Quer curtir? Vem mostrar que sua escova japonesa realmente funciona: na chuva!

    Mas vamos ao que interessa: BANDAS! Por partes, como diria Jack.

    O Sete: Grudento, radiofônico, mas não acrescenta nada ao que já se produz em dezenas de bandas cariocas atualmente. Aliás, apesar do montante de bandas de lá interessadas em vir ao MADA, conta-se nos dedos as que merecem realmente atenção, O Sete, apesar da boa excução das músicas e vocação pra ser trilha de Malhação, não está na minha lista de cariocas insuperáveis.

    Filhos da Judith: A não ser pela abordagem bem humorada do rock, a banda cai na vala comum. Aliás, a cena carioca com essa homogeneização de bandas, lembra o estouro do pop rock cover em Natal no fim da década passada, não em estilo, mas em padronização. Segundo lugar muito distante do merecido Cabaret, nas eliminatórias do festival.

    Tantra: Valeu pela lenda, por ver o cara da banda que salvou muitos jovens da morte ou levou-os à ela, vivo, tocando, envelhecendo pouca coisa além do que já se via nas capas dos discos da Legião. Marcelo Bonfá era ali um misto de múmia e novo, afinal muita gente ainda canta - e cantou! - Legião no show. De resto, foi bem lastimável. Fred Nascimento é desafinado, as músicas são bobas, chatas, deve ter sido muito melhor pros caras, viajarem, verem o mar e tanta gente ainda empolgada com "quando o sol nascer na janela do seu quarto...", pra eles. E só.

    Ímpar: O Sete mineiro, com menos peso. Letras de banda gospel, execução de banda primária. Às vezes o que faz a banda parecer bem melhor do que é, é realmente a estrutura de primeira que o festival dá a cada uma delas. Muitas não merecem. Não é o caso do Ímpar, até merecem, mas não sairão disso.

    Relespública: Das melhores apresentações do festival. Dez anos na estrada não é pouca coisa, confere maturidade, segurança e apesar da monotemática boba das músicas, conseguem mostrar serviço sem muito esforço. Vale à pena a repercussão que terão com a sequência MTV-MADA, é justa, mas como não é fácil de manter, muita estrada é só o que sustentará o nome dos caras nos palcos do país.

    Cansei de Ser Sexy: Quem conhece um mínimo sobre meu gosto musical, nem sonha como me senti um pregador no deserto durante todo esse tempo tentando convencer que o CSS é fenomenal. Sabe aquele filme Nove Canções? Pois é: sexo e rock and roll. Mas há quem insista em tirar do filme aspectos sócio-políticos cosmo-filosóficos, quando na verdade é tudo simples e prático. CSS é diversão, diversão e diversão. Esqueça seus preconceitos e se jogue. Foi isso que eu vi um público ensandecido fazer diante do palco. Antológico. Pros anais do MADA.

    Moptop: E já que falei de cariocas no início das resenhas, chegamos ao nome do que realmente importa. O melhor show, o mais profissional, o futuro mais promissor e justo. Digam o que quiser - e as pessoas realmente precisam de referências e comparações para definir opiniões - que são os Strokes brasileiros, o Los Hermanos envenenados, a verdade é que há tempos ver uma banda independente chegar lá não era tão gratificante. Ligue o seu rádio, você ainda vai ouvir muito o Moptop, porque eles são fodas.

    Seu Zé: Apesar do público fiel - e eles poderiam ter explorado muito mais isso - a banda fez uma apresentação morna, lenta. O horário e a expectativas mereciam uma pancada mais forte. Não foi o caso. A postura de "Zeca Baleiro encontra Zé Ramalho no fim da década de setenta" se não passar por reformas e releituras, vai soar datada e a banda acabar perdendo o timing, a hora de pegar o bonde da história. Não repetiu nem metade do que fez ano passado.

    Banzé: Não é a minha preferida no Mondo 77. Prefiro o Violentures, mas mesmo assim, é um cartão de visitas e tanto. Tem um "q" de punk inglês ali que se perde às vezes em sonoridade californiana, mas tá valendo. Boa banda, divertida, letras legais, presença de palco boa, mas com muito feijão pra comer.

    Nando Reis: Não tenho muito o que comentar sobre o cara que de cada dez hits que temos da cabeça, quatro são dele. Foi um show excepcional, e poderia ter sido mais, bastaria mais uma hora pra ele dar conta do recado, como dá em shows solos. Mas festival é isso, compreensível. Foi bonito de ver mais de dez mil pessoas de mãos para cima aos pedidos do cantor.

    Bikini: A melhor banda de churrasco de todos os tempos. Sem você nem pedir eles tocam Nirvana, Green Day, Raul Seixas, Queen, Legião Urbana, Paralamas. Alguém avise ao pessoal do Seven, que as quintas podem bombar com Bikini na casa, hein!

    Sunday, May 07, 2006

    Tim MADA 2006

    Pre-scriptum: Bom, devo me retirar por uns dias. Férias e tal, mudança de estado civil idem. Vocês conferem abaixo dois textos meus referentes a cobertura da oitava edição do Tim MADA. O balando final e a cobertura da terceira noite devo postar ao longo da semana. Abraços!

    Primeira Noite

    Debaixo de muita água. Assim começou a oitava edição de um dos maiores festivais de música do país, o TIM Mada 2006. E por causa da chuva que deu poucas tréguas, o custo para o público foi de uma hora e meia de atraso no início das apresentações. Já as bandas arcaram com o ônus de dez minutos a menos em cada show.

    Apesar dos percalços, há tempos o festival não acertava tanto a mão numa escalação coesa de estilos e sons. As exceções ficaram por conta das poucas bandas que fugiram da temática black-hip hop-eletro.

    E quem inaugurou o palco da Arena do Imirá foram os paraenses do Rádio Coletivo Cipó. A mistura de elementos regionais com batidas eletrônicas apesar de dançante e das letras bem sacadas, incluindo tons políticos, só chegou a despertar grandes atenções do público quando contou com a participação de Mestre Laurentino.

    Foi das coisas mais curiosas que já passaram pelo MADA. Mestre Laurentino, um jovem senhor de 80 anos, ex-artesão marajoara e gaiteiro, esbanjou swing e saúde, fazendo um up grade de “Loirinha Americana” de Gilberto Gil, numa versão modernosa, dançando, cantando e arrancando aplausos efusivos da platéia.

    O Zero8Quatro veio logo em seguida. Fazendo um show correto, para os fãs bem fiéis que acompanham a banda, mas sem muita empatia com o restante do público. O destaque, como sempre, foi a boa performance de Vitor, o baterista, deixando a impressão de ser maior que a própria banda. É bem visível esse desencontro no palco.

    Já o Montgomery fez uma apresentação um pouco mais contida mas coesa. Apesar do vocal claudicante, foi perceptível um amadurecimento do pós-punk inglês – vide Echo & The Bunnymen com Joy Division – com sotaque potiguar.

    Logo em seguida um dos grandes destaques da noite: Macaco Bong, do distante Mato Grosso. Apesar da apatia do público, estranhando uma banda instrumental pela primeira vez no MADA, há tempos não se via uma proposta tão interessante entre as bandas indies que aportaram por aqui. Com um pé fundo em At The Drive In e Mars Volta, o timbre estridente da guitarra e a fúria da bateria – com exceção de um acesso ou outro ao pop – o grupo deixou seu nome marcado nos ouvidos dos mais atentos.

    Já Negedmundo tirou a prova dos nove com o público. Assim que iniciou seu show, a chuva caiu impiedosamente, mas o seu coco de embolada high tech conseguiu segurar muita gente dançando debaixo d’água, e empolgada com o início do projeto que com um pouco mais de identidade – para desvencilhar-se do Agregados e DuSouto – promete ser um dos bons destaques tipo exportação da terrinha. Lembrando claro, dos bons tempos de Embolafunk na Ribeira.

    Sai o coco e entra a jovem guarda revisitada. Era Volver, uma das melhores bandas pernambucanas da safra “asfalto beat”, com seu rock básico anos 60 e letras divertidas. Apesar da disposição, a escalação da banda nessa seqüência soou como um hiato, algo desconexo entre Negdmundo e DuSouto.

    Sem contar um aparente desconforto da banda com algumas indefinições acerca do tempo que dispunham. Ponto negativo para o MADA. Levar tensão para quem já esta em cima do palco é desrespeito. Mas bola para frente, tocando e aprendendo. Volver ainda precisa voltar a Natal para mostrar o quanto é boa banda.

    Já o DuSouto jogou em casa e com dois gols de vantagem sobre a chuva. Incensado pela escolha da música “Iê Mãe Jah” para compor a trilha do Fifa Soccer 2006, a banda apresentou um show vigoroso, mais pesado que do ano passado, deixando poucos parados. E nessa hora a arena já parecia um mar de gente.

    A grande sacada do eletroregionalismo da banda foram os samplers curiosos de “Deixa a Tanga Voar”, do imortal Luiz Gonzaga, além da incidência de “Mais que Nada” de Ben Jor. É um up grade de Chico Antônio com forró, que já pode ganhar os palcos dos festivais de verão da Europa na boa.

    A boa apresentação do DuSouto foi o cartão de visitas para o show classe A do Agregados Família do Rap. Confirmando o sucesso da segmentação black da noite, o público atendeu os pedidos da banda e fez muito barulho, cantando alguns refrões juntos e com as mãos sempre para cima acenando positivamente ao som.

    Os rappers de Mãe Luíza ainda apresentaram uma música do novo trabalho que deve ser lançado em breve. Uma lição de hip hop de verdade e não pagode americano, que a playboyzada do camarote poderia ter aprendido com mais atenção.

    O primeiro headliner da noite, o Pavilhão 9, chegou fazendo feio e saudando Natal com um sonoro “Boa noite Recife!”. Mancadas a parte, o som da banda - agora fora das grandes gravadoras - está bem mais pesado que os produzidos anteriormente, mas não conseguiu grandes feitos com o público, àquela hora lotando a Arena à espera d’O Rappa.

    Aliás, O Rappa fez uma apresentação com boas distorções, crua, mas no geral, aquém de outras inesquecíveis já realizadas aqui. O que incomodou pouca gente. Na verdade tanta empatia e gosto pelo grupo carioca com o público natalense, merecem ser fruto de um estudo. Afinal de contas, mesmo com uma vinheta reggae insistentemente chata entre as músicas e dois ou três discursos decorados na ponta da língua, o show da platéia foi impecável na maioria das músicas.

    A Feira Mix voltou a ser – claro, em parte por causa da chuva e por ser coberta – o grande ponto de interação entre o público. Mas a decoração caprichada, ainda não conseguiu esconder alguns problemas de estrutura e espaço. Já a tenda eletrônica esqueceu da pobreza do ano passado e não decepcionou o público do segmento.

    No geral a chuva atrapalhou bastante, tirou um pouco o brilho da festa por ter esfriado o público muitas vezes. Mas como a previsão para hoje é de mais água caindo, é bom se dispor a pular em quaisquer condições, pois quem está na chuva é para dançar.

    Segunda Noite

    Até a chuva parou para curtir a noite de plumas, paetês e molecada do Festival Tim Mada, sexta-feira. Ao contrário da tromba d’água do dia anterior, o tempo bom deixou o evento correr sem maiores atropelos e colaborou com o público, em quantidade bem inferior à abertura.

    Foi uma noite andrógina e ousada, do avesso, com um “duelo” divertido entre o mais duro rock and roll e a alegria do glam rock. De um lado do ringue os cariocas do Cabaret e os paulistas do Daniel Belleza e os Corações em Fúria; do outro o peso distorcido do Reação em Cadeia e a diversão do Cachorro Grande.

    O Cabaret, e sua porção “Velvet Revolver com glíter” foi uma das sensações da noite. Liderada por Márvio dos Anjos – sobrinho neto do poeta Augusto dos Anjos, uma figura carismática e de performance arrebatadora, a banda conseguiu aplausos sem maiores dificuldades, com muita atitude e provocação.

    O final da apresentação foi surpreendente, com Márvio e sua postura “poser escrachada” fazendo da platéia uma extensão do palco, se jogando entre o público até se perder pela Arena do Imirá. Depois claro, de dedicar uma das músicas a Paulo Ricardo, que segundo ele “já não é nada demais mesmo”.

    Vai ser difícil esquecer a cena. E o som, claro. As letras muito divertidas e o instrumental de primeira linha complementaram o show, mostrando porquê o Cabaret – ou puteiro, como quis regionalizar o vocalista - venceu a seletiva MADA-Laboratório Pop.

    E para quem já havia se chocado com a atitude provocativa do grupo, Daniel Belleza soou como um acinte. Mas afinal, ainda há quem se choque ao invés de divertir-se?

    Aí sim a coisa escancarou, com muita pluma, micro-saia e bota de cano longo, de fazer inveja às mulheres presentes. Eram os Corações em Fúria, os três homens que seguem Daniel fazendo um show pesado e performático, com um punk vigoroso saindo das guitarras e bateria, mas sem conseguir contagiar por completo o público.

    E como nem só de confetes vive o rock, não foi sem hora que os gaúchos do Reação em Cadeia mostraram serviço no palco. Anunciou-se de cara que os representantes das carnavalescas apresentações anteriores poderiam ir a nocaute.

    Peso e barulho com pegada pop na medida para ganhar rádios do país – o que começa a acontecer com o lançamento do disco MTV Apresenta – foi uma das bandas que mais empolgaram o público, surpreendentemente cantando muitas músicas do início ao fim. Algumas soaram como um soco.

    Mas antes do último round já haviam passado pelo palco os acreanos do Los Porongas, uma das melhores bandas do festival até agora. Coesa, madura com letras inteligentes e um som que para não ficar sem definição, passeia entre o punk rock e o progressivo com muita classe.

    Chamou atenção por dar acesso a algo no mínimo curioso: saber que no longínquo Acre, alguém faz música independente e de muita qualidade. Aliás, é um mérito desta edição do festival: diversificação e experiências fora do eixo “sul maravilha”. Que venham mais.

    Entre os que defenderam a bandeira potiguar, infelizmente o destaque foi negativo. Os problemas técnicos – que pelo segundo dia consecutivo soaram como um desrespeito às bandas – prejudicaram e muito a apresentação do Automatics. A banda, tensa, ficou impossibilitada de mostrar tudo que sabe, da melhor forma.

    Mesmo assim o grupo soube driblar os percalços e para quem quis ouvir, mostrou seu punk-noise-rock com cheiro de anos 70. Uma nova chance ano que vem para compensar, não seria má idéia.

    O Revolver, lançando seu primeiro trabalho pelo incansável Selo DoSol, fez um bom show, mas sem muito alarde. O som da banda às vezes procura uma identidade, não sabe se é pop ou rock and roll e acaba confundindo os ouvidos. Ainda precisa de muita estrada, mas ela virá, pois há potencial.

    Mais à frente os selvagens d’Os Bonnies com seu rockabilly envenenado. A crueza deles empolgou o público fiel à banda, chamou atenção dos curiosos, mas não foi uma apresentação memorável. A postura “to nem aí para o mundo”, com declarações do tipo “Era melhor estar dormindo, mas mesmo assim foi massa!” pode com o tempo não ter graça nenhuma, por mais sincera que seja.

    Entre o escracho d’Os Bonnies e o nocaute do Cachorro Grande, a baiana Pitty levou muitos, muitos teens à loucura. A roqueira que vem quebrando alguns parâmetros na relação rock independente-rock maisntream não decepcionou os fãs, fez um show pesado, com atitude e exibindo algumas vezes um notável amadurecimento na voz.

    O curioso nisso tudo é ver alguém com uma postura tão roqueira, atraindo fãs como se fosse uma Sandy punk. Mas que continuem com Pitty mesmo, vai fazer muito bem a todos eles no futuro.

    E ela foi o gongo que soou anunciando a chegada do melhor show do MADA 2006 até então: Cachorro Grande. Repaginando o rock dos anos 60-70, a banda foi muito competente e segurou boa parte do público que imaginava-se, iria embora logo após a Pitty.

    Ledo engano. Muita gente conferiu a pancada da banda, a presença de palco contagiante, além claro, de um rosário de músicas que foram desde a fase independente e longe da mídia, até o acesso radiofônico que tomou conta do último disco.

    Para quem não sabia o que esperar da banda, até então virgem de palcos natalenses, não foi possível contar até dez. O rock nocauteou geral. E todo mundo saiu ganhando.

    De derrota por W.O. só mesmo a ausência da banda paraibana Zeferina Bomba. O grupo fez feio ao não dar nenhuma satisfação, tanto à organização quanto ao público. Mas no fim das contas ninguém sentiu a falta e até ajudou a compensar o atraso inicial.

    Foi uma bela noite. Com apresentações para todas as idades, de pais cuidadosos acompanhando os filhos bem novos, ao público já calejado de tanto rock and roll. Além das plumas – ou seriam penas? – que voaram ao longo da maratona de shows.

    Wednesday, May 03, 2006

    O rock não acabou

    Há quem diga que o rock errou. Outros não apostam nenhuma ficha no seu futuro. Mas a verdade é que ele está bem vivo, e convenhamos, politicamente correto a ponto de se reciclar todos os dias. Para quem nasceu sob a égide da contestação, mudar sem perder o tom é o grande segredo.

    Desde que o rock se entende por gente ele dialoga com si mesmo e com o público, revisando, recriando e – que mal há? – copiando influências. Dessa forma ele se adaptou às mais diversas épocas e necessidades, o que garantiu até agora, uma história decente para um senhor sexagenário e um futuro promissor como de um jovem.

    E dentre as coisas que nasceram dessa constante reciclagem do rock, inclusive no Brasil, uma das mais promissoras é sem dúvida a banda carioca Moptop.

    Citado recentemente por uma publicação especializada, como uma das 13 bandas ao redor do mundo que merecem atenção redobrada, o grupo mostra no som que produz, o óbvio gratificante: o rock não acabou.

    A banda que traz no nome uma referência à rebeldia - à época o corte de cabelo dos Beatles era considerado uma heresia - começou a despertar atenções da forma mais adequada na era da informação instantânea: via internet. "Hypada" já com as primeiras gravações caseiras, o grupo ganhou o cyberespaço e atraiu além de fãs, o olhar cuidadoso dos bons produtores.

    Tanta curiosidade começou a se espalhar com o lançamento do EP Demo “Moonrock”, gravado em low-cost, com recursos limitados, mas fiéis às intenções da banda. Antes disso, uma primeira Demo havia sido gravada com músicas em inglês, ainda nas cinzas da Delux, nome que a banda precisou mudar para evitar pendengas jurídicas.

    A repercussão foi a melhor possível, a banda cavou seu espaço em festivais consagrados como o Humaitá Pra Peixe, Bananada e Claro Que é Rock, e conseguiu num espaço de alguns meses, abrir os shows históricos das bandas britânicas Placebo e Oasis.

    Além disso, o site do grupo, desenvolvido por seus membros, concorreu à prêmios na MTV brasileira e na competição organizada pelo festival norte americano SXSW. Acredite, não é pouco.

    E tanto não é, que a banda acabou de assinar um contrato promissor com a major Universal e em breve deve invadir as rádios do país e sair do circuito underground merecidamente.

    Qual o segredo? Um som forjado na nova onda do rock de garagem com pitadas de saudosismo retrô. Quiçá, uma referência ou outra ao Los Hermanos, nem que seja nos vocais de Gabriel Marques.

    O Moptop consegue reciclar diversas influências que vão da simplicidade sonora dos anos 60, com alguns elementos punks preconizados por Iggy Pop, e porque não, um caldo do que vem sendo produzido atualmente como Franz Ferdinand e The Strokes.

    Cópia? Imitação? Não senhores, reciclagem e influência às suas ordens. Troque Strokes por Buddy Holly e Franz Ferdinand por Television, e chegamos à raiz da questão. Pronto, aí está o som do Moptop.

    Músicas como “O rock acabou” e “Moonrock”, merecem muito mais do que considerações mesquinhas e rótulos. Empolgam, são cruas na medida certa, têm boas letras e conseguem empatia de cara com um público cada vez mais exigente, tendo em vista o punhado de coisas novas que surgem na última hora.

    Com letras versando sobre amor, medos e frustrações cotidianas, a banda consegue entornar temas recorrentes com a fúria de riffs bem sacados, e um flerte com música eletrônica apesar da sonoridade tradicional. A banda é formada por Gabriel Marques, Daniel Campos, Mario Mamede e Rodrigo Curi.

    Não se deixe levar – o seu corpo está livre para se jogar com a melodia – pelo trecho pessimista “O rock acabou / melhor ligar sua TV...”, da música “O Rock Acabou”. É puro jogo de cena da banda. O rock está vivo, mais do que nunca e o Moptop é a prova disso.

    Como essa engrenagem de reciclagem, diálogo, empatia e crueza funciona, você vai conferir no último dia do Festival Tim MADA, quando a banda sobe ao palco da Arena do Imirá. É sempre bom ver um velhinho tão safado como o rock, chacoalhando como um garoto de vinte e poucos anos.