Wednesday, April 26, 2006

Sim!


O mundo pop é feito de diálogos. Artista e público interagem numa troca de escolhas e respostas. Aliar boas escolhas, que tragam respostas positivas, não é das tarefas mais fáceis.

No fim das contas, o que conta, além da sorte, é sempre o talento, que poucos, no darwinismo do pop, conseguem usar a seu favor.

Na música brasileira contemporânea, o melhor exemplo desse encaixe perfeito atende pelo nome de Nando Reis.

A delicadeza e a poesia das músicas do cantor e compositor floresceram em meio a guitarras pesadas e gritos de protesto nos Titãs. Ali nasceram canções singelas quase sempre difíceis de conciliar ao labirinto de gostos e opiniões do grupo. Que o digam músicas como Os Cegos do Castelo, Marvin, Pra Dizer Adeus e Homem Primata.

A necessidade de registrar suas composições materializou-se há mais de dez anos, quando ele lançou o disco 12 de Janeiro, seu primeiro trabalho solo. Desse álbum, Me Diga foi o sucesso inaugural.

A série de fatores que levou Nando Reis a dizer sim à carreira solo direcionou os holofotes para um compositor voraz e um músico agora mais despojado no palco, cuidando de suas próprias crias. Crias que até então estavam sob os cuidados de Marisa Monte, Skank, Cidade Negra ou Jota Quest. Tantos sucessos puseram Nando entre os maiores arrecadadores de direitos autorais do país.

Por último, e iniciando um novo ciclo (porque a morte é, acima de tudo, uma forma de renascimento), a participação na guinada da carreira de Cássia Eller. A parceria entre Nando Reis e a cantora culminou na produção do Cássia Eller Acústico MTV, um sucesso de vendas e de crítica graças à harmonia das composições emprestadas à voz e à performance visceral de Cássia.

O bem-sucedido trabalho em dupla revelou que era a hora de partir para novas e definitivas escolhas. Escolhas já palpáveis em Para Quando o Arco-íris Encontrar o Pote de Ouro, seu segundo disco, lançado em 2000; confirmadas nos discos seguintes, Infernal, de 2002, e A Letra A, de 2003; e que findaram no sucesso estrondoso do disco Nando Reis MTV Ao Vivo.

Com o trabalho ao vivo, Nando reverteu a sensação de quase-espanto para os que não sabiam serem seus muitos dos hits que estiveram nas paradas de sucesso da década passada.

Em breve, o público será convidado a dar mais uma resposta ao cantor, quando seu novo disco, Sim e Não, chegar às lojas. Uma nova produção, feita com o mesmo talento que o consagrou, retratando um artista maduro e satisfeito com suas escolhas.

Sim e Não é um disco folk como os anteriores, não apenas pelo violão sempre um volume acima da guitarra, mas pelas levadas e pelas letras quase crônicas que retratam o tema sobre o qual Nando compõe com maestria: o amor.

É um trabalho afetuoso, de imagens e formas variadas, para representar sentimentos de desejo ou simplesmente carinho e cuidado. As letras, como sempre, trazem relatos cotidianos e metáforas muito visuais. É assim na primeira faixa, Sim. A imagem de um anjo-mulher, que cai distraída do céu até ser resgatada e posta onde sempre se imaginou, num altar, chega a dar sensação de movimento.

Sou Dela é o hit do disco. O resultado da mistura da percussão de Marçal com uma levada à la Dave Mathews Band é uma música crescente, que desperta a vontade de dançar. Muito. Ao pé do palco. Dentro em breve deve estourar nas rádios.

Em N, a influência de Roberto Carlos na vida de Nando se faz presente. Melódica, simples e com uma letra etérea, o cantor quase nos deixa sentir o cheiro de quem partiu. Ao contrário de Por Onde Andei, onde havia um pedido de desculpas pela falta de tempo, agora se sente, na pele, a lentidão do tempo que não passa.

Três músicas do disco possuem uma visível ligação em suas formas, apesar de tratarem de temas aparentemente diversos: Monóico, Santa Maria e Caneco 70. Esta, um roteiro de road movie com Bob Dylan dando as cartas, “Folk’n’roll” da melhor qualidade, atravessando o país para contar uma história de amor cheia de lacunas.

Esse também é o tom de Santa Maria, particular, íntima, como se o cantor quisesse dividir com o público uma história sua, claro, adaptável aos mais diversos romances. Mas, acima de tudo, sua, até na imagem de alguém que dança depois de tirar as botas.

Já Monóico é uma ode à diversidade sexual. Desconsiderando códigos e maneiras, Nando Reis constrói uma música libertária sobre variadas formas de amar e ainda a entremeia com uma pergunta maliciosa: "Será que você está me entendendo?"

Em contraste com tanta objetividade, o disco nos presenteia com duas composições líricas e floreadas, na melhor acepção da palavra: Nos Meus Olhos e Espatódea.

Mesclando imagens de lua, estrela, uma tez branca e sem sardas com flores e pólen, Espatódea é cristalina, harmônica, carece de ouvidos desarmados e espíritos leves. É amor de pai com sensibilidade de mãe. No caso, a música é dedicada a Zoe, sua filha mais nova.

A sensibilidade mostra outra face em Nos Meus Olhos. Um verso como "Amor, eu te proíbo de não me querer" jamais caberia numa música sem o arranjo de cordas impecável de Lincoln Olivetti. Casamento perfeito de letra e música.

As cordas estão presentes também em Para Luzir o Dia, uma letra que descreve suaves fatos cotidianos como Diariamente, uma das parcerias com Marisa Monte. Agora os suaves fatos têm mais maturidade.

A letra/melodia de Como Se o Mar é como uma coleção de fotos antigas, em preto e branco, rolos de velhos filmes, mostrando o mar entrando em casa, lavando as malas e deixando só a paz. A paz que ousa pedir simples e diretamente: "Você quer se casar?" Nesta faixa, o naipe de metais quase se iguala às cordas de Nos Meus Olhos.

Para Ela Voltar narra uma seqüência de infortúnios, denunciando a impraticabilidade da distância entre duas pessoas que se amam e o decorrente caos que se instala a partir da falta que um sente do outro.

Para encerrar o disco, além de Ti Amo, uma música-mantra de um verso só, há uma faixa escondida, uma jam session da banda que acompanha Nando há algum tempo. É um aperitivo vigoroso e bem colocado de tudo o que se ouve ao longo do disco: a bateria segura de Diogo, o baixo idem do Cambraia, a guitarra de um Pontual que não quer brilhar mais que o cantor e o teclado do experiente Alex Veley.

Sim e Não é isso. Um disco aberto a vários gostos, várias formas de tratar o mesmo tema: o amor. Tem uma linha de influências sonoras que vão de Willie Nelson a Devendra Banhart, passando por Bob Dylan. Mas, no fundo, radiofônico como uma velha canção do Roberto. É nessa trilha que Nando Reis caminha.

Sim e Não é um trabalho maduro, que confirma a boa fase do cantor e compositor paulista e seu talento inegável de hitmaker. Talento esse que poderá ser conferido no Mada, ao som de músicas novas saindo do forno e daquelas outras que a gente jurava que era da Marisa Monte ou do Skank, ou...

Enfim, diga SIM a Nando Reis!

Tuesday, April 18, 2006

Tirinhas

- O Albergue poderia ser um dos melhores lançamentos do ano, mas caiu nas mãos do roteirista errado. A idéia, que só do meio pro fim (se não viu o filme, pare de ler aqui) fica evidente, de um "clube de elite" onde figurões europeus pagam caro para satisfazer seus desejos mais sádicos e cruéis, seria o mote ideal (remete ao fracassado 8mm?).

A grife Tarantino na apresentação do filme perde-se no gosto barato por sangue, violência gratuita e peitos impecáveis de eslovacas e russas sedentas. O conjunto da obra até parece convidativo, não é? Mas o resultado é fraco. A trilha sonora sozinha, além claro dos peitos impecáveis de Svetlana, não conseguem salvar o filme.

- Orgulho e Preconceito é um bom filme. Conservador, açucarado, mas sejamos sinceros: o que esperar de um filme baseado num romance de Jane Austen? Acho que o grande mérito da película é este: não ir além das expectativas. A narrativa é ágil e os personagens aristocráticos, assim como em todos os romances de Austen, são obrigados a descer um pouco dos seus saltos e conhecer a vida nas castas abaixo.

É um filme inglês no mais literal sentido da palavra. Inglês no humor, no apego aos símbolos e no puritanismo, além claro, do sotaque gostoso de Keira Knightley. O sorriso da atriz é um achado, a interpretação idem. Já pode figurar no meu álbum de queridinhas, junto com Scarlet Johanson e Clair Danes.

- Vocês não acham que ao som de Love by Grace, a cena em que Natalie Portman tem os cabelos raspados em V de Vingança, é a cópia de Carolina Dickman em Laços de Família?

- Leiam a crônica "Autógrafo para a solidão" de Norton Ferreira, no Sanatório da Imprensa. É um primor. Como sempre.

- Bom, o que eu sei é que desde a semana em que esse disco foi lançado, estava lá jogado no meu HD. Passava por ele e nem sequer tirava uma casquinha. Mas há duas semanas eu me redimi, e Devils and Dust tem marcado presença no meu mp3 player, com força.

De quem? Bruce Springsteen.

É um disco americano, folk, de letras fortes e crescentes. Seus ouvidos perceberão o salto de uma faixa para outra. E isso é bom.

- Mais coisas nos meus ouvidos: The Like, Matisyahu (um judeu ortodoxo que canta reggae, ragga e dub), Nando Reis e Badly Drawn Boy.

- O DVD Video Collection de Badly Drawn Boy, importado para o Brasil através da Slag, é uma das melhores aquisições que você pode fazer, em se tratando de boa música conteporânea.

Apesar de merecer um tratamento visual mais cuidadoso (em termos físicos), o disco vale pelas surpresas que este jovem inglês ainda consegue protagonizar. Vide a apresentação dele ao vivo em Glastonburry.

- Durante todo o feriado de Tiradentes eu estarei acompanhando o senhor Geraldo "Chuchu" Alckmin em sua visita à Natal. É dura a vida de jornalista...

- Olha, vou ser bem sincero: eu sei que ele é um canalha, que foi um escroto entreguista, que roubou no atacado e no varejo, mas eu não consigo parar de ler o livro de Fernando Henrique Cardoso, A Arte da Política.

É um relato, apesar de canalha, inteligente e centrado sobre o poder no Brasil. Mesmo vaidoso - e ele até faz piada disso no livro - algumas horas ele consegue disfarçar-se de getil e humilde e cativar o leitor.

É um sociológo sendo vencido pela política, pela artimanha do fisiologismo e das concessões sem pudores, mas é um retrato a ser considerado. Escreve bem, fluido e em linguagem acessível.

O episódio do encontro com a rainha da Inglaterra onde ele a presenteia um jaburu de pedras semi-preciosas é engraçadíssimo. Já as mortes de Luiz Eduardo Magalhães e Sérgio Motta (que de tão escroto, preferiu morrer a deixar pistas do que fez) é o lado tocante do livro, sem ser piegas.

- Pra quem gosta de quadrinhos e putaria (não necessariamente nessa ordem) a dica da hora é: Clic, de Manara ou O espinafre de Yukiko, de um francês que esqueci o nome. Os preços são salgados, mas compre pensando em investimento e não em gasto.

- A Revista da MTV deu uma mudada considerável. Ainda é fraca (afinal, em que revista séria Bianca Jhordão seria colunista?), mas a edição desse mês tem boas matérias.

- Já viu a Revista Sexy com Maryeva? Que Alá perdoe os mais fracos, mas é de tremer o Oriente Médio. Fotos lindas, modelo idem. Uma ilha nas bancas esse mês, dentre as revistas ditas masculinas.

- Escrevi demais, né? Ok. Tchau.

Ah, calma, antes de ir ouça isto: Moptop, o Rock Acabou.

Sunday, April 09, 2006

Agora

Em terra de hype, quem tem coração é rei. Sim, o hype, este moço de poucos sentimentos que faz juras de amor eterno com prazo de validade de no máximo até o próximo entardecer.

Mas não há motivos para pânicos. O rock, desde que se entende por gente, é um constante diálogo entre americanos e ingleses, com raras observações pertinentes de espectadores ao redor.

Um responde ao outro, aperfeiçoando um movimento, negando o da década passada e assim por diante. Beatles são uma resposta a Elvis, Sex Pistols uma resposta ao Ramones, Pixies uma resposta ao Jesus And Mary Chain, Lou Reed uma resposta a David Bowie, o Britpop uma resposta ao Grunge e assim ad infinitum.

Então vejamos: em tempos de MSN, Orkut, Skype e outras formas de diálogo instantâneo, nada mais previsível que uma adaptação do rock a essas ferramentas.

O ontem começa sempre no segundo que acabamos de viver. Por que seria diferente com o rock atual? Ou melhor, essa é a intenção da mídia especializada e das gravadoras, mas você não tem senso critico suficiente para se safar dessa? É aí que nasce o hype. O inverso da velocidade dos diálogos travados com velocidade de cartas escritas à mão atravessando o atlântico.

Foi assim que surgiram os Strokes, o Libertines já foi o encarregado das doze tarefas hercúleas para manter o punk rock vivo. Agora o Arctic Monkeys são a bola da vez, assim como o Television cover, digo, o Franz Ferdinand. Sem contar as dezenas de bandas que sucumbiram logo após alguma matéria especial na NME.

O que fazer? Ouvir tudo, sem ansiedade e sem esquecer das referências históricas do rock. Claro, mantenha cuidado com o download que o Emule é de barro, mas vá adiante.

No meio de tantos falsos alarmes, o rock se mantém vivo e isso é o que importa. Seja em cópias cínicas do The Cure, ou bandas fofinhas da Suécia, vai-se encontrar o DNA do que Elvis inventou no Mississipi e o tempo tratou de aperfeiçoar.

Escute tudo o que as revistas recomendam. Que mal há em se manter atualizado? Só não esqueça de um bom filtro aos ouvidos, uma boa sacola onde possa guardar elementos inovadores, um set list do que te marcou e ponto final. O hype é impiedoso, mas não é pecado.

A prova disso é o arrepio que dá, quando depois de se esbaldar ouvindo Kings of Leon cantando Kings of Rodeo, você põe na vitrola Desire de Bob Dylan e acha genial ouvir Hurricane numa versão de oito minutos. É isso. O rock está vivo, e o hype, apesar de cruel, faz com que ele respire sem ajuda de aparelhos.

***

E para não dizer que é só o rock que vive de hypes e farsas, sábado eu conferi ao vivo um dos maiores engodos da MPB: Vanessa da Mata. Sim, a moça com voz de Gal Costa, cabelos de Bethânia cantando Carcará (ou se preferir, um xaxim com samambaia) e que invadiu todas as rádios do país é uma grande merda salva pelo rótulo de cult.

Dessas que nunca deveriam ter saído de um barzinho, com a sorte de ter encontrado pela frente uma pá de medalhões em crise criativa apanhando o que encontrar de minimamente interessante pela frente e um dos maiores produtores do país, Vanessa é lastimável no palco.

Desafina, pula, deslumbra-se com milhares de pessoas que passam quase uma hora e meia do show esperando que ela cante o hit da novela global. É uma festa. Canta Caetano com levada pop de banda que quer mostrar serviço, passeia descalça pelo palco com ar de hippie de boutique e traz nos olhos uma sinceridade cortante do tipo “nem eu sei como cheguei aqui”.

E enquanto Liminha enche os bolsos de grana, talvez no próximo verão já não se saiba que danado é Vanessa da Mata.

***

Sabe quando você tem a impressão de ter nascido 12.000 km abaixo do lugar ideal? É isso que eu acho toda vez que ouço Bela Kiss e Passageiro Feliz, do Bugs. Por que eles não são ingleses? Nada contra natalenses, mas acho que essa é a única forma de a banda ter o reconhecimento que merece.

***

Na vitrola, randomicamente: The Like, The Subways, Guillemots, The Byrds, Zeca Baleiro, Nando Reis e MQN.

***

Chata, chata, chatinha, assim vou te chamar, assim você vai ser: Marisa Monte. Não chega a incomodar, mas cansa... Cansa essa verborragia, essa pose de bienal tentando explicar o óbvio e mais que visível: depois que consegue-se o título de cool qualquer merda que você faça vai vender como água. Saco.

***

A Era do Gelo 2 é muito bom. Fora um roteiro meio capenguinha, a edição é ágil, a qualidade da animação é impecável e o mais importante: tem personagens hilários. Vide os dois gambás. São, pra mim, mais antológicos que o esquilo.

***

V de Vingança é de dar vergonha a Alan Moore. Ele estava certo em não ceder os direitos ao diretor. Ele estava certíssimo ao proibir que seu nome seja sequer citado nos créditos. O roteiro parece um quejo suíço, é lastimável.

Há uma interpretação das instituições políticas completamente diversa da origem da série, que durou todo o governo de Tatcher na Inglaterra. Isso não poderia ficar de fora, não se pode, num HQ de Moore, sonegar isso ao expectador. Pegaram algo under, e transformaram em pop pirotécnico. Lastimável. Horrível.

Natalie Portman me fez esquecer de como ela é ótima atriz. Não foi além de Demi Moore em Até o Limite da Honra.