Sim!

O mundo pop é feito de diálogos. Artista e público interagem numa troca de escolhas e respostas. Aliar boas escolhas, que tragam respostas positivas, não é das tarefas mais fáceis.
No fim das contas, o que conta, além da sorte, é sempre o talento, que poucos, no darwinismo do pop, conseguem usar a seu favor.
Na música brasileira contemporânea, o melhor exemplo desse encaixe perfeito atende pelo nome de Nando Reis.
A delicadeza e a poesia das músicas do cantor e compositor floresceram em meio a guitarras pesadas e gritos de protesto nos Titãs. Ali nasceram canções singelas quase sempre difíceis de conciliar ao labirinto de gostos e opiniões do grupo. Que o digam músicas como Os Cegos do Castelo, Marvin, Pra Dizer Adeus e Homem Primata.
A necessidade de registrar suas composições materializou-se há mais de dez anos, quando ele lançou o disco 12 de Janeiro, seu primeiro trabalho solo. Desse álbum, Me Diga foi o sucesso inaugural.
A série de fatores que levou Nando Reis a dizer sim à carreira solo direcionou os holofotes para um compositor voraz e um músico agora mais despojado no palco, cuidando de suas próprias crias. Crias que até então estavam sob os cuidados de Marisa Monte, Skank, Cidade Negra ou Jota Quest. Tantos sucessos puseram Nando entre os maiores arrecadadores de direitos autorais do país.
Por último, e iniciando um novo ciclo (porque a morte é, acima de tudo, uma forma de renascimento), a participação na guinada da carreira de Cássia Eller. A parceria entre Nando Reis e a cantora culminou na produção do Cássia Eller Acústico MTV, um sucesso de vendas e de crítica graças à harmonia das composições emprestadas à voz e à performance visceral de Cássia.
O bem-sucedido trabalho em dupla revelou que era a hora de partir para novas e definitivas escolhas. Escolhas já palpáveis em Para Quando o Arco-íris Encontrar o Pote de Ouro, seu segundo disco, lançado em 2000; confirmadas nos discos seguintes, Infernal, de 2002, e A Letra A, de 2003; e que findaram no sucesso estrondoso do disco Nando Reis MTV Ao Vivo.
Com o trabalho ao vivo, Nando reverteu a sensação de quase-espanto para os que não sabiam serem seus muitos dos hits que estiveram nas paradas de sucesso da década passada.
Em breve, o público será convidado a dar mais uma resposta ao cantor, quando seu novo disco, Sim e Não, chegar às lojas. Uma nova produção, feita com o mesmo talento que o consagrou, retratando um artista maduro e satisfeito com suas escolhas.
Sim e Não é um disco folk como os anteriores, não apenas pelo violão sempre um volume acima da guitarra, mas pelas levadas e pelas letras quase crônicas que retratam o tema sobre o qual Nando compõe com maestria: o amor.
É um trabalho afetuoso, de imagens e formas variadas, para representar sentimentos de desejo ou simplesmente carinho e cuidado. As letras, como sempre, trazem relatos cotidianos e metáforas muito visuais. É assim na primeira faixa, Sim. A imagem de um anjo-mulher, que cai distraída do céu até ser resgatada e posta onde sempre se imaginou, num altar, chega a dar sensação de movimento.
Sou Dela é o hit do disco. O resultado da mistura da percussão de Marçal com uma levada à la Dave Mathews Band é uma música crescente, que desperta a vontade de dançar. Muito. Ao pé do palco. Dentro em breve deve estourar nas rádios.
Em N, a influência de Roberto Carlos na vida de Nando se faz presente. Melódica, simples e com uma letra etérea, o cantor quase nos deixa sentir o cheiro de quem partiu. Ao contrário de Por Onde Andei, onde havia um pedido de desculpas pela falta de tempo, agora se sente, na pele, a lentidão do tempo que não passa.
Três músicas do disco possuem uma visível ligação em suas formas, apesar de tratarem de temas aparentemente diversos: Monóico, Santa Maria e Caneco 70. Esta, um roteiro de road movie com Bob Dylan dando as cartas, “Folk’n’roll” da melhor qualidade, atravessando o país para contar uma história de amor cheia de lacunas.
Esse também é o tom de Santa Maria, particular, íntima, como se o cantor quisesse dividir com o público uma história sua, claro, adaptável aos mais diversos romances. Mas, acima de tudo, sua, até na imagem de alguém que dança depois de tirar as botas.
Já Monóico é uma ode à diversidade sexual. Desconsiderando códigos e maneiras, Nando Reis constrói uma música libertária sobre variadas formas de amar e ainda a entremeia com uma pergunta maliciosa: "Será que você está me entendendo?"
Em contraste com tanta objetividade, o disco nos presenteia com duas composições líricas e floreadas, na melhor acepção da palavra: Nos Meus Olhos e Espatódea.
Mesclando imagens de lua, estrela, uma tez branca e sem sardas com flores e pólen, Espatódea é cristalina, harmônica, carece de ouvidos desarmados e espíritos leves. É amor de pai com sensibilidade de mãe. No caso, a música é dedicada a Zoe, sua filha mais nova.
A sensibilidade mostra outra face em Nos Meus Olhos. Um verso como "Amor, eu te proíbo de não me querer" jamais caberia numa música sem o arranjo de cordas impecável de Lincoln Olivetti. Casamento perfeito de letra e música.
As cordas estão presentes também em Para Luzir o Dia, uma letra que descreve suaves fatos cotidianos como Diariamente, uma das parcerias com Marisa Monte. Agora os suaves fatos têm mais maturidade.
A letra/melodia de Como Se o Mar é como uma coleção de fotos antigas, em preto e branco, rolos de velhos filmes, mostrando o mar entrando em casa, lavando as malas e deixando só a paz. A paz que ousa pedir simples e diretamente: "Você quer se casar?" Nesta faixa, o naipe de metais quase se iguala às cordas de Nos Meus Olhos.
Para Ela Voltar narra uma seqüência de infortúnios, denunciando a impraticabilidade da distância entre duas pessoas que se amam e o decorrente caos que se instala a partir da falta que um sente do outro.
Para encerrar o disco, além de Ti Amo, uma música-mantra de um verso só, há uma faixa escondida, uma jam session da banda que acompanha Nando há algum tempo. É um aperitivo vigoroso e bem colocado de tudo o que se ouve ao longo do disco: a bateria segura de Diogo, o baixo idem do Cambraia, a guitarra de um Pontual que não quer brilhar mais que o cantor e o teclado do experiente Alex Veley.
Sim e Não é isso. Um disco aberto a vários gostos, várias formas de tratar o mesmo tema: o amor. Tem uma linha de influências sonoras que vão de Willie Nelson a Devendra Banhart, passando por Bob Dylan. Mas, no fundo, radiofônico como uma velha canção do Roberto. É nessa trilha que Nando Reis caminha.
Sim e Não é um trabalho maduro, que confirma a boa fase do cantor e compositor paulista e seu talento inegável de hitmaker. Talento esse que poderá ser conferido no Mada, ao som de músicas novas saindo do forno e daquelas outras que a gente jurava que era da Marisa Monte ou do Skank, ou...
Enfim, diga SIM a Nando Reis!

