Da série "É raro, mas às vezes consigo falar sério"
DE CASA À PRAÇA
Esta semana, em mais uma das incontáveis discussões que acontecem no Programa Questão Política, na FM Tropical, duas opiniões colidiram através de três vozes. De um lado eu, do outro José Bezerra “Ximbica” Júnior e Laurence Bittencourt.
O debate histriônico (para não dizer caótico) veio à tona junto com os dados de uma pesquisa do IBOPE, que aferiu o nível de tolerância/conivência do brasileiro em relação à corrupção. Segundo a pesquisa, o percentual de brasileiros que sucumbiriam a algum tipo de ato ilícito – entre treze citados – chega ao alarmante patamar de 75%.
A questão era: a população segue o exemplo dos seus governantes? Ou os governantes são apenas um espelho do seu povo?
Escolhi o caminho menos pisado, e como disse Robert Frost, “isso faz toda diferença”. Fui contra dois amigos diletos. Mas não arredo o pé: o povo é tão ou mais sujo quanto a sua classe política. E a pesquisa é apenas uma constatação do que se vê diariamente.
Ora, uma nação, assim como um corpo, é formada por microorganismos, células sociais dos mais variados tipos e membros, que vão da família ao Parlamento, passando pelas igrejas e até um Clube de Mães do bairro. Sendo assim, esse corpo tem a forma que a junção das células lhe conferem.
Senão vejamos. Além da liberdade, que outro dogma podemos destacar da democracia? Ora, a representatividade. A democracia não permite ao cidadão comum a sua execução direta. É para isso que existem os partidos, as eleições, para que o povo escolha os seus representantes, que em tese, vão defender os direitos de quem os elegeu.
E é justamente na escolha desses representantes que entra o fator “empatia”. O eleitor fatalmente vai escolher alguém que ele acredita se afeiçoar às suas idéias, ao seu modo de ver o mundo, ou pior, alguém em quem ele possa reproduzir o que não pôde ser ou fazer. Freud explica?
Pode ter sido assim que o PT chegou ao poder: alavancado pela crença de ser um partido sério e honesto, coisa que o povo brasileiro, vá lá, não é. Nunca foi. E quando eu digo povo, falo de mim, de quem me cerca e de quem me lê.
A honestidade a que faço referência não se mede apenas com milhões de dólares, ouro ou coisas de alto valor, e sim, com o mínimo, o pouco e aparentemente normal.
Vivemos num país soterrado pela corrupção, pelo achincalhe das instituições públicas, pelo desrespeito às leis e pela impunidade, onde o alvo mais fácil é claro, são os políticos ou a “elite dominante”. Como se fossem uma Geni, sendo execrada por quem faz de conta que ela não saiu das entranhas de quem a insulta.
Historicamente, e por – dentre tantos outros motivos – culpa de uma colonização católica-portuguesa viciada e excusa, o Brasil ficou conhecido mundo afora como o país do “jeitinho”, da manha, do “aproveita que ninguém tá vendo” e das “carteiradas”.
Na fila do banco, na vaga da garagem, com o guarda de trânsito subornado e em inúmeras outras situações cotidianas, o que se vê é um povo permissivo, leniente, que a tudo absolve desde que não mexam no seu pirão.
Sendo assim, a representação político-partidária, nada mais é do que, em proporções maiores, e como reza a democracia, uma reprodução de quem o escolheu para exercê-lo.
O erro de quem subtrai para si dinheiro púbico, ou utiliza-se do poder que a política confere para fins pessoais, apesar de incensado pelos holofotes da mídia, é o mesmo, e agora numa esfera palpável, de quem joga lixo na rua pela janela do carro.
Vejam só, se eu jogo lixo na rua enquanto dirijo e sou acompanhado nesta atitude por milhares de motoristas diariamente, qual a conseqüência disso tudo? Uma situação de calamidade pública: enchentes e alagamentos por causa de bueiros entupidos por este “inofensivo” lixo.
Quem subtrai para si da empresa onde trabalha – sim, porque corrupção não existe apenas no setor público – uma simples resma de papel, seja lá por qual motivo alegado, caso um dia chegue à presidência desta empresa acabará desviando coisa de maior valor. A resma ou o montante milionário, juntos podem levar esta empresa à falência. De grão em grão...
Numa comparação minimalista, é assim que as coisas funcionam: como um bumerangue. As somas astronômicas de verbas públicas que simplesmente desaparecem no caminho Estado-cidadão, reproduzem, só que em movimento inverso, o ato de atirar lixo no lugar indevido. No caso das verbas, surrupia-se.
As conseqüências advêm de uma causa aparentemente invisível e pouco condenável. No entanto, à medida que a esfera de poder aumenta, e essa causa vai se sedimentando como normal ou comum, o crime só tende a aumentar, e o que é pior, as suas conseqüências também.
Cria-se aí um ambiente de cegueira moral e ética, onde o praticante da corrupção já não consegue distinguir o que é legal ou ilegal, tornando as coisas passíveis de um julgamento individualista e não subordinado a regras rígidas que pelo menos no papel, devem dirigir a sociedade.
A conseqüência de um país carcomido por pequenos atos dessa natureza, que formam uma bola de neve até agora incontolável, é uma máquina que trabalha com o próprio povo, como a burocracia por exemplo; criada e alimentada para vender facilidades.
Facilidades estas negociadas num "estado" paralelo ao Estado de Direito, transformando um ente púbico num vergonhoso mercado de secos e molhados.
Concordo que em determinadas situações o retrato do superior hierárquico tem lá sua importância e influência, mas as atitudes condenáveis desse superior tiveram uma raiz que brotou quando ele tinha o mesmo poder de quem agora o tem como exemplo.
Talvez seja uma questão de formação social, de um povo despreparado culturalmente – e não me refiro aqui a erudição simplesmente – que frente às dificuldades do dia-a-dia, procurou o atalho, o caminho mais fácil e assim catalogou ao longo dos anos várias maneiras de burlar os códigos sociais.
Mesmo que a democracia seja um catalisador do processo de aprimoramento não apenas político-partidário como também sócio-educacional de um povo, esse mesmo povo não é inimputável enquanto evolui.
Delito é delito, e só falsamente tem-se a impressão de que aumenta de tamanho quando passa a atingir mais pessoas. Mas continua sendo da mesma forma quando não era de conhecimento público. Vai do “chorinho” na dose do uísque ao pedido cínico da propina ao empreiteiro.
Os políticos que o povo agora tanto critica, não estão lá à toa. Foram postos por nós, são o cume de uma pirâmide onde somos base.
Cruzamos todos os dias com inúmeros Severinos, Delúbios e Paloccis, na vaga de estacionamento para deficientes ocupada indevidamente por quem não tem problemas, por exemplo. E ainda nos saímos volta e meia com um vergonhoso “ah, é por pouco tempo!”.
Aliada à cultura de permissão, ainda temos a propagada condição de sermos um povo pacífico, como se isso premiasse algo que não seja um pacto de mediocridade e aceitação do espúrio. Bondade, paz e falta de protesto em excesso, nada mais é do que covardia ou vergonha de assumir-se igual a quem criticamos.
Acredito em exceções, mas como elas falam por si, talvez o caseiro Francenildo Costa – que acaba de derrubar um Ministro de Estado – se encaixe nos 25% que a pesquisa IBOPE apontou sequer admitirem praticar algum ato ilícito, caso venham a ocupar um cargo público. Talvez.
Ora, se 75% admite o contrário na condição de cidadão, imaginem o que podemos esperar dos nossos futuros políticos, que sairão como sempre, dentre nós. Dessa forma, a pirâmide exemplificada acima, torna-se uma escadinha de marginalidade.
O Presidente que é agente ativo/passivo ou permissivo da corrupção praticada por um Ministro, permite que este seja também agente de um Senador, este de um Deputado Federal, agora um Governador, depois um Deputado Estadual, um Prefeito, um Vereador, uma liderança de bairro, até chegar em nossa rua.
Sejamos menos hipócritas. Pratiquemos além da condenação pública, uma dose diária de auto-flagelação e critica íntima dos nossos atos, que de tão “comuns” já não despertam nenhuma sanção pessoal. É bom se despir da condição de vítima e assumir de vez a de cúmplice, para assim tentar mudar algo, ao invés de querer que os outros mudem os atos que faríamos caso estivéssemos em seu lugar.
Quem está no poder acusado de fazer com o dinheiro público desgraça, não aprendeu lá. Afinal de contas, é o costume de casa que vai à praça.
Esta semana, em mais uma das incontáveis discussões que acontecem no Programa Questão Política, na FM Tropical, duas opiniões colidiram através de três vozes. De um lado eu, do outro José Bezerra “Ximbica” Júnior e Laurence Bittencourt.
O debate histriônico (para não dizer caótico) veio à tona junto com os dados de uma pesquisa do IBOPE, que aferiu o nível de tolerância/conivência do brasileiro em relação à corrupção. Segundo a pesquisa, o percentual de brasileiros que sucumbiriam a algum tipo de ato ilícito – entre treze citados – chega ao alarmante patamar de 75%.
A questão era: a população segue o exemplo dos seus governantes? Ou os governantes são apenas um espelho do seu povo?
Escolhi o caminho menos pisado, e como disse Robert Frost, “isso faz toda diferença”. Fui contra dois amigos diletos. Mas não arredo o pé: o povo é tão ou mais sujo quanto a sua classe política. E a pesquisa é apenas uma constatação do que se vê diariamente.
Ora, uma nação, assim como um corpo, é formada por microorganismos, células sociais dos mais variados tipos e membros, que vão da família ao Parlamento, passando pelas igrejas e até um Clube de Mães do bairro. Sendo assim, esse corpo tem a forma que a junção das células lhe conferem.
Senão vejamos. Além da liberdade, que outro dogma podemos destacar da democracia? Ora, a representatividade. A democracia não permite ao cidadão comum a sua execução direta. É para isso que existem os partidos, as eleições, para que o povo escolha os seus representantes, que em tese, vão defender os direitos de quem os elegeu.
E é justamente na escolha desses representantes que entra o fator “empatia”. O eleitor fatalmente vai escolher alguém que ele acredita se afeiçoar às suas idéias, ao seu modo de ver o mundo, ou pior, alguém em quem ele possa reproduzir o que não pôde ser ou fazer. Freud explica?
Pode ter sido assim que o PT chegou ao poder: alavancado pela crença de ser um partido sério e honesto, coisa que o povo brasileiro, vá lá, não é. Nunca foi. E quando eu digo povo, falo de mim, de quem me cerca e de quem me lê.
A honestidade a que faço referência não se mede apenas com milhões de dólares, ouro ou coisas de alto valor, e sim, com o mínimo, o pouco e aparentemente normal.
Vivemos num país soterrado pela corrupção, pelo achincalhe das instituições públicas, pelo desrespeito às leis e pela impunidade, onde o alvo mais fácil é claro, são os políticos ou a “elite dominante”. Como se fossem uma Geni, sendo execrada por quem faz de conta que ela não saiu das entranhas de quem a insulta.
Historicamente, e por – dentre tantos outros motivos – culpa de uma colonização católica-portuguesa viciada e excusa, o Brasil ficou conhecido mundo afora como o país do “jeitinho”, da manha, do “aproveita que ninguém tá vendo” e das “carteiradas”.
Na fila do banco, na vaga da garagem, com o guarda de trânsito subornado e em inúmeras outras situações cotidianas, o que se vê é um povo permissivo, leniente, que a tudo absolve desde que não mexam no seu pirão.
Sendo assim, a representação político-partidária, nada mais é do que, em proporções maiores, e como reza a democracia, uma reprodução de quem o escolheu para exercê-lo.
O erro de quem subtrai para si dinheiro púbico, ou utiliza-se do poder que a política confere para fins pessoais, apesar de incensado pelos holofotes da mídia, é o mesmo, e agora numa esfera palpável, de quem joga lixo na rua pela janela do carro.
Vejam só, se eu jogo lixo na rua enquanto dirijo e sou acompanhado nesta atitude por milhares de motoristas diariamente, qual a conseqüência disso tudo? Uma situação de calamidade pública: enchentes e alagamentos por causa de bueiros entupidos por este “inofensivo” lixo.
Quem subtrai para si da empresa onde trabalha – sim, porque corrupção não existe apenas no setor público – uma simples resma de papel, seja lá por qual motivo alegado, caso um dia chegue à presidência desta empresa acabará desviando coisa de maior valor. A resma ou o montante milionário, juntos podem levar esta empresa à falência. De grão em grão...
Numa comparação minimalista, é assim que as coisas funcionam: como um bumerangue. As somas astronômicas de verbas públicas que simplesmente desaparecem no caminho Estado-cidadão, reproduzem, só que em movimento inverso, o ato de atirar lixo no lugar indevido. No caso das verbas, surrupia-se.
As conseqüências advêm de uma causa aparentemente invisível e pouco condenável. No entanto, à medida que a esfera de poder aumenta, e essa causa vai se sedimentando como normal ou comum, o crime só tende a aumentar, e o que é pior, as suas conseqüências também.
Cria-se aí um ambiente de cegueira moral e ética, onde o praticante da corrupção já não consegue distinguir o que é legal ou ilegal, tornando as coisas passíveis de um julgamento individualista e não subordinado a regras rígidas que pelo menos no papel, devem dirigir a sociedade.
A conseqüência de um país carcomido por pequenos atos dessa natureza, que formam uma bola de neve até agora incontolável, é uma máquina que trabalha com o próprio povo, como a burocracia por exemplo; criada e alimentada para vender facilidades.
Facilidades estas negociadas num "estado" paralelo ao Estado de Direito, transformando um ente púbico num vergonhoso mercado de secos e molhados.
Concordo que em determinadas situações o retrato do superior hierárquico tem lá sua importância e influência, mas as atitudes condenáveis desse superior tiveram uma raiz que brotou quando ele tinha o mesmo poder de quem agora o tem como exemplo.
Talvez seja uma questão de formação social, de um povo despreparado culturalmente – e não me refiro aqui a erudição simplesmente – que frente às dificuldades do dia-a-dia, procurou o atalho, o caminho mais fácil e assim catalogou ao longo dos anos várias maneiras de burlar os códigos sociais.
Mesmo que a democracia seja um catalisador do processo de aprimoramento não apenas político-partidário como também sócio-educacional de um povo, esse mesmo povo não é inimputável enquanto evolui.
Delito é delito, e só falsamente tem-se a impressão de que aumenta de tamanho quando passa a atingir mais pessoas. Mas continua sendo da mesma forma quando não era de conhecimento público. Vai do “chorinho” na dose do uísque ao pedido cínico da propina ao empreiteiro.
Os políticos que o povo agora tanto critica, não estão lá à toa. Foram postos por nós, são o cume de uma pirâmide onde somos base.
Cruzamos todos os dias com inúmeros Severinos, Delúbios e Paloccis, na vaga de estacionamento para deficientes ocupada indevidamente por quem não tem problemas, por exemplo. E ainda nos saímos volta e meia com um vergonhoso “ah, é por pouco tempo!”.
Aliada à cultura de permissão, ainda temos a propagada condição de sermos um povo pacífico, como se isso premiasse algo que não seja um pacto de mediocridade e aceitação do espúrio. Bondade, paz e falta de protesto em excesso, nada mais é do que covardia ou vergonha de assumir-se igual a quem criticamos.
Acredito em exceções, mas como elas falam por si, talvez o caseiro Francenildo Costa – que acaba de derrubar um Ministro de Estado – se encaixe nos 25% que a pesquisa IBOPE apontou sequer admitirem praticar algum ato ilícito, caso venham a ocupar um cargo público. Talvez.
Ora, se 75% admite o contrário na condição de cidadão, imaginem o que podemos esperar dos nossos futuros políticos, que sairão como sempre, dentre nós. Dessa forma, a pirâmide exemplificada acima, torna-se uma escadinha de marginalidade.
O Presidente que é agente ativo/passivo ou permissivo da corrupção praticada por um Ministro, permite que este seja também agente de um Senador, este de um Deputado Federal, agora um Governador, depois um Deputado Estadual, um Prefeito, um Vereador, uma liderança de bairro, até chegar em nossa rua.
Sejamos menos hipócritas. Pratiquemos além da condenação pública, uma dose diária de auto-flagelação e critica íntima dos nossos atos, que de tão “comuns” já não despertam nenhuma sanção pessoal. É bom se despir da condição de vítima e assumir de vez a de cúmplice, para assim tentar mudar algo, ao invés de querer que os outros mudem os atos que faríamos caso estivéssemos em seu lugar.
Quem está no poder acusado de fazer com o dinheiro público desgraça, não aprendeu lá. Afinal de contas, é o costume de casa que vai à praça.

