Tuesday, June 13, 2006

Time

- Meu tempo encontra-se absurdamente escasso. Nos últimos dias andei trabalhando como um condenado. Mas o pior é que gosto disso - por mais que pareça sádico. Às vezes tenho a impressão que possuo uma capacidade enorme de me adaptar a coisas exaustivas e lineares, desde que mexam mais com meu cérebro do que com músculos. Ainda não sei se isso é bom. Mas não deve ser.

Por causa da falta de tempo, passei os olhos correndo pelos jornais e revistas. Nada de novo. Nem o que parece ser. Há alguma coisa no mundo que ainda pode chocar?

- Quanto a invasão do MLST no Congresso Nacional, o que continua cada vez mais claro pra mim é como a política - partidária ou não - no Brasil (se quiser estender-se a América Latina, sinta-se à vontade) não tem parâmetros, ou ao menos parâmetros respeitáveis como o europeu ou a dicotomia americana. A coisa chega a ser surreal.

Nós temos um movimento de sem-terras comandado por um aristocrata pernambucano, uma sem-terra selvagem que ataca terminais informatizados, frutos do capitalismo e da globalização, usando piercing e tatuagem agregados a um visual mais americano impossível, incluindo o blue jeans igualmente globalizado.

Por outro lado, quando você procura referenciais, argumentos e análises dos fatos, o que encontra é uma mídia que no mínimo escreve mal pra caralho, sem conhecer o que fala, viciada, parcial e sem embasamento teórico algum.

Tudo bem que de teoria bastam as plenárias-fetiche da esquerda, mas o que mais se aproxima do palpável, chega a ser ridículo, tratando sempre o espectador deste circo como um palhaço.

Não quero ler Emir Sader, nem ouvir João Pedro Stédile, da mesma forma que já não tenho saco para a Veja, Época ou Istoé. Com raras exceções - Roberto Pompeu de Toledo e Guilherme Fiúza são duas delas - o que temos acesso (imaginem os excluídos disso tudo) é a um mar de mediocridade, textos pobres, opiniões idem.

No fim das contas, MSLT, Emir Sader, Veja, Globo, PT, PSDB e tudo que mereça atenção suficiente nesse país, para cair nas mãos dos ditos formadores de opinião, são nivelados por uma linha tão baixa, mas tão baixa, que às vezes acho que é uma vantagem enorme ser um alienado e viver assim: sustentado pelo Bolsa Família, alucinado pra saber quem é o pai de "Zúlia" e esquecendo quem sou, o que sei e só curtindo a Copa do Mundo.

- Paul Válery tinha razão: "No mundo das crenças, os fatos não penetram". Então me diga como diabos vou explicar a um brasileiro que eu acho futebol um saco, sem importância e que não é charminho meu, mas não consigo me empolgar nem um pouco com o que se vê na TV, 24 horas por dia atualmente? Todo mundo acredita no contrário. Bom, mas tinha que ser assim, afinal a unanimidade...

- 120 páginas depois de um dia de cão. Foi o que devorei na entrada da madrugada de ontem. "Os Senhores do Crime",de Jean Ziegler. Um mini-tratado sobre a decadência do estado nacional, o domínio do capitalismo, do neo-liberalismo globalizado e sua próxima fase: o crime organizado.

É assustador e ao mesmo tempo empolgante o que ele relata após anos de estudos, de como o crime organizado já é algo enraizado em todas as esferas do poder mundial. São relatos quase cinematográficos.

Seja no interior do Mato Grosso ou na Praça Vermelha, existe quase um mundo paralelo, uma Matrix, onde pessoas que têm um poder considerável sobre as nossas vidas de alguma forma, trasitam como meros anônimos, quando na verdade são bandidos da pior estirpe.

Ratos sanguinários com um acesso incrível aos mais diversos palácios, sejam eles de poder político ou judiciário, impunemente construindo impérios, que quem sabe, esteja Marx errado ou não, abrirão as portas da barbárie capitalista.

O pequeno resgate histórico da máfia italiana feito por Ziegler é de arrepiar. De como as "famiglias" conseguiram se estabelecer como "protetoras" do feudo na Idade Média, dos invasores na Idade Moderna e dos opressores políticos num passado não muito distante, até serem aos poucos sedimentados no seio da sociedade como uma coisa necessária, romantizada pelo cinema e símbolo de um estado paralelo, quando na verdade, ela atua em boa parte das vezes mesclada com o Estado institucionalizado.

Basta ver o acerto entre os americanos e as familías mafiosas de NY, que em contato com os capos que ainda estavam na Itália, conseguiram invadir sem problemas a Itália na Segunda Guerra Mundial. E tudo assim, despercebido pela sociedade média.

Chega a lembrar (e fazer referência) um pouco o Brasil, mas as coisas aqui ainda não são tão profissionais. Ainda. Mas um dia serão. Aliás, não foi um acerto semelhante que Brizola fez com os bandidos cariocas? Ou o governo de São Paulo agora com o PCC? Fica a pergunta no ar.

O problema é que como eu falei logo acima, aqui não se sabe nem o que danado é socialismo, esquerda, direita, o que dirá capitalismo! E são com as armas do mercado que o crime organizado mais sofisticado atua, claro, deixando um rastro de sangue.

É isso: no fim, o que você achar mais podre e pensar que o Estado - que existe para proteger o cidadão hipossuficiente - o combate, tenha certeza que são irmãos siameses. Seja lá quem tenha cooptado primeiro um ao outro.

Ah, e eu já tive o imenso prazer de assistir uma conferência com Jean Ziegler, ao vivo. Não há como esquecer, ele é brilhante.

- Não vi filmes esses dias. Acho que canalizei todas as minhas energias para o livro acima citado e uns discos que ando ouvindo. Em tempos de futebol, multidão, barulho e falta de bons filmes na salas, eu realmente correria um risco enorme de enlouquecer.

- Quem puder baixe o último disco do Grandaddy (que o nome esqueço agora). É último mesmo. A banda decidiu que, tendo em vista a inviabilidade financeira de continuar produzindo o seu indie folk rock classudo, não vão mais lançar discos ou fazer turnês. Uma pena. Mas é uma despedida sem erros e sem concessões horripilantes.

- Mais um disco imperdível: Wolfmother, homônimo. É como um "up grade" setentista, guitarrinhas sem medo do peso, melódicos sem melar a cueca e um vocal quase Ozzy, mas com o seu charme próprio. É um discão. Tocando sem parar por aqui.

Ok, o titio aqui dá uma colher de chá antes de você comprar o disco, que aliás, chegou ao Brasil essa semana. Mas baixe logo, o link só vale por uma semana (Colossal - Wolfmother):

http://www.yousendit.com/transfer.php?action=download&ufid=C0BCE9750792C4B4

(Basta copiar e colar no seu navegador)

Mais uma? Tudo bem. Como passei uns dias longe daqui, aqui vai uma banda bem decente: Band of Horses. Não tenho certeza, mas o disco não deve ter chegado ao Brasil ainda. Tá aqui embaixo (Wicked Gil - Band of Horses):

http://www.yousendit.com/transfer.php?action=download&ufid=362B93311A73F976

- Aliás, tenho uma TV à minha frente enquanto escrevo, sem volume. Mas vou te contar, de onde diabos saiu essa safra de publicitários tão imbecis a ponto de criar comerciais como o da Pepsi, o da Kaiser e/ou o do Guaraná Antarctica?! Minha gente, vocês acham mesmo que alguém vai mudar de refrigerante ou cerveja por causa de um deles? Ou pior: começar a beber por isso?

- O Brasil acaba de vencer a Croácia por um a zero. Enquanto isso eu escrevia este post, ouvindo Josh Rouse. Mas quer saber? Vou ouvir 1 x 0, de Pixinguinha, interpretada por Rafhael Rabello e Dino Sete Cordas. Um primor da música brasileira.

6 Comments:

Anonymous Morgano. said...

O problema de tudo isso são seus livros prediletos...

Mas, pelo menos, você tem um mínimo de oção das coisas; mas, no fundo, parece ser o mesmo sem noção. Como não gosta de futebol se usa "expressões futebolísticas" do tipo "não sei quem marcou um gol.."?

Mas Ok, nada de esperar d emais das pessoas... Como eu disse: um mínimo de noção.

3:10 PM  
Blogger Dig said...

Pô Morgano, aparece aí pra gente trocar idéias cara!

Já pensou na possibilidade de utilizar expressões com o intuito de se fazer entender melhor para a maioria? Ou ao invés de dizer que uma banda "marcou um gol" com tal disco, você preferiria ler que o disco dela é "insofismavelmente o mais consistente em termos de rock"?

Abs.
Rodrigo

3:46 PM  
Blogger Fialho said...

Amanhã parto.
E seu livro?
Como vc vai deixar no padrão dos JEs?
Não sei. Mas como diz o filósofo latino: tô nem aí!
Na volta a gente vê.
Manda um texto pra Marlos, pra ele postar no blog dos JEs.
Fala que é do seu livro "Dos prazeres aos pedaços" que sai em breve.
Tá na hora de criar expectativa, meu caro.
Na minha volta a gente vê como fica.
Se vc tiver pressa, fale com Modrack que ele ajuda vc e Cocão a deixar no padrão dos JEs. É coisa simples. A logomarca nas duas capas e na lombada, além da página de rosto.
E põe também o manifesto e texto (ou textos) de seus jovens autores preferidos.
Boa Copa, meu queiriado!
Não vá ver futebol demais, viu?
FUI!

PS.: gosto da propaganda da Kiser.
PS.2.: Lembranças a Pibas.

6:31 PM  
Anonymous Ada said...

O comercial da Pepsi é uma das coisas mais mongóis que já vi. ><

Ada

9:59 AM  
Blogger reflexoes depois said...

passando para visitar esse espaço... fazia tempo que não vinha aqui! Beijos

9:51 PM  
Anonymous Carlos Andreazza said...

E que o velho Dino esteja em bom lugar, arrepiando naquele sete-cordas elegante... (Boa pedida mesmo: "1 x 0").

11:46 AM  

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