Sunday, May 07, 2006

Tim MADA 2006

Pre-scriptum: Bom, devo me retirar por uns dias. Férias e tal, mudança de estado civil idem. Vocês conferem abaixo dois textos meus referentes a cobertura da oitava edição do Tim MADA. O balando final e a cobertura da terceira noite devo postar ao longo da semana. Abraços!

Primeira Noite

Debaixo de muita água. Assim começou a oitava edição de um dos maiores festivais de música do país, o TIM Mada 2006. E por causa da chuva que deu poucas tréguas, o custo para o público foi de uma hora e meia de atraso no início das apresentações. Já as bandas arcaram com o ônus de dez minutos a menos em cada show.

Apesar dos percalços, há tempos o festival não acertava tanto a mão numa escalação coesa de estilos e sons. As exceções ficaram por conta das poucas bandas que fugiram da temática black-hip hop-eletro.

E quem inaugurou o palco da Arena do Imirá foram os paraenses do Rádio Coletivo Cipó. A mistura de elementos regionais com batidas eletrônicas apesar de dançante e das letras bem sacadas, incluindo tons políticos, só chegou a despertar grandes atenções do público quando contou com a participação de Mestre Laurentino.

Foi das coisas mais curiosas que já passaram pelo MADA. Mestre Laurentino, um jovem senhor de 80 anos, ex-artesão marajoara e gaiteiro, esbanjou swing e saúde, fazendo um up grade de “Loirinha Americana” de Gilberto Gil, numa versão modernosa, dançando, cantando e arrancando aplausos efusivos da platéia.

O Zero8Quatro veio logo em seguida. Fazendo um show correto, para os fãs bem fiéis que acompanham a banda, mas sem muita empatia com o restante do público. O destaque, como sempre, foi a boa performance de Vitor, o baterista, deixando a impressão de ser maior que a própria banda. É bem visível esse desencontro no palco.

Já o Montgomery fez uma apresentação um pouco mais contida mas coesa. Apesar do vocal claudicante, foi perceptível um amadurecimento do pós-punk inglês – vide Echo & The Bunnymen com Joy Division – com sotaque potiguar.

Logo em seguida um dos grandes destaques da noite: Macaco Bong, do distante Mato Grosso. Apesar da apatia do público, estranhando uma banda instrumental pela primeira vez no MADA, há tempos não se via uma proposta tão interessante entre as bandas indies que aportaram por aqui. Com um pé fundo em At The Drive In e Mars Volta, o timbre estridente da guitarra e a fúria da bateria – com exceção de um acesso ou outro ao pop – o grupo deixou seu nome marcado nos ouvidos dos mais atentos.

Já Negedmundo tirou a prova dos nove com o público. Assim que iniciou seu show, a chuva caiu impiedosamente, mas o seu coco de embolada high tech conseguiu segurar muita gente dançando debaixo d’água, e empolgada com o início do projeto que com um pouco mais de identidade – para desvencilhar-se do Agregados e DuSouto – promete ser um dos bons destaques tipo exportação da terrinha. Lembrando claro, dos bons tempos de Embolafunk na Ribeira.

Sai o coco e entra a jovem guarda revisitada. Era Volver, uma das melhores bandas pernambucanas da safra “asfalto beat”, com seu rock básico anos 60 e letras divertidas. Apesar da disposição, a escalação da banda nessa seqüência soou como um hiato, algo desconexo entre Negdmundo e DuSouto.

Sem contar um aparente desconforto da banda com algumas indefinições acerca do tempo que dispunham. Ponto negativo para o MADA. Levar tensão para quem já esta em cima do palco é desrespeito. Mas bola para frente, tocando e aprendendo. Volver ainda precisa voltar a Natal para mostrar o quanto é boa banda.

Já o DuSouto jogou em casa e com dois gols de vantagem sobre a chuva. Incensado pela escolha da música “Iê Mãe Jah” para compor a trilha do Fifa Soccer 2006, a banda apresentou um show vigoroso, mais pesado que do ano passado, deixando poucos parados. E nessa hora a arena já parecia um mar de gente.

A grande sacada do eletroregionalismo da banda foram os samplers curiosos de “Deixa a Tanga Voar”, do imortal Luiz Gonzaga, além da incidência de “Mais que Nada” de Ben Jor. É um up grade de Chico Antônio com forró, que já pode ganhar os palcos dos festivais de verão da Europa na boa.

A boa apresentação do DuSouto foi o cartão de visitas para o show classe A do Agregados Família do Rap. Confirmando o sucesso da segmentação black da noite, o público atendeu os pedidos da banda e fez muito barulho, cantando alguns refrões juntos e com as mãos sempre para cima acenando positivamente ao som.

Os rappers de Mãe Luíza ainda apresentaram uma música do novo trabalho que deve ser lançado em breve. Uma lição de hip hop de verdade e não pagode americano, que a playboyzada do camarote poderia ter aprendido com mais atenção.

O primeiro headliner da noite, o Pavilhão 9, chegou fazendo feio e saudando Natal com um sonoro “Boa noite Recife!”. Mancadas a parte, o som da banda - agora fora das grandes gravadoras - está bem mais pesado que os produzidos anteriormente, mas não conseguiu grandes feitos com o público, àquela hora lotando a Arena à espera d’O Rappa.

Aliás, O Rappa fez uma apresentação com boas distorções, crua, mas no geral, aquém de outras inesquecíveis já realizadas aqui. O que incomodou pouca gente. Na verdade tanta empatia e gosto pelo grupo carioca com o público natalense, merecem ser fruto de um estudo. Afinal de contas, mesmo com uma vinheta reggae insistentemente chata entre as músicas e dois ou três discursos decorados na ponta da língua, o show da platéia foi impecável na maioria das músicas.

A Feira Mix voltou a ser – claro, em parte por causa da chuva e por ser coberta – o grande ponto de interação entre o público. Mas a decoração caprichada, ainda não conseguiu esconder alguns problemas de estrutura e espaço. Já a tenda eletrônica esqueceu da pobreza do ano passado e não decepcionou o público do segmento.

No geral a chuva atrapalhou bastante, tirou um pouco o brilho da festa por ter esfriado o público muitas vezes. Mas como a previsão para hoje é de mais água caindo, é bom se dispor a pular em quaisquer condições, pois quem está na chuva é para dançar.

Segunda Noite

Até a chuva parou para curtir a noite de plumas, paetês e molecada do Festival Tim Mada, sexta-feira. Ao contrário da tromba d’água do dia anterior, o tempo bom deixou o evento correr sem maiores atropelos e colaborou com o público, em quantidade bem inferior à abertura.

Foi uma noite andrógina e ousada, do avesso, com um “duelo” divertido entre o mais duro rock and roll e a alegria do glam rock. De um lado do ringue os cariocas do Cabaret e os paulistas do Daniel Belleza e os Corações em Fúria; do outro o peso distorcido do Reação em Cadeia e a diversão do Cachorro Grande.

O Cabaret, e sua porção “Velvet Revolver com glíter” foi uma das sensações da noite. Liderada por Márvio dos Anjos – sobrinho neto do poeta Augusto dos Anjos, uma figura carismática e de performance arrebatadora, a banda conseguiu aplausos sem maiores dificuldades, com muita atitude e provocação.

O final da apresentação foi surpreendente, com Márvio e sua postura “poser escrachada” fazendo da platéia uma extensão do palco, se jogando entre o público até se perder pela Arena do Imirá. Depois claro, de dedicar uma das músicas a Paulo Ricardo, que segundo ele “já não é nada demais mesmo”.

Vai ser difícil esquecer a cena. E o som, claro. As letras muito divertidas e o instrumental de primeira linha complementaram o show, mostrando porquê o Cabaret – ou puteiro, como quis regionalizar o vocalista - venceu a seletiva MADA-Laboratório Pop.

E para quem já havia se chocado com a atitude provocativa do grupo, Daniel Belleza soou como um acinte. Mas afinal, ainda há quem se choque ao invés de divertir-se?

Aí sim a coisa escancarou, com muita pluma, micro-saia e bota de cano longo, de fazer inveja às mulheres presentes. Eram os Corações em Fúria, os três homens que seguem Daniel fazendo um show pesado e performático, com um punk vigoroso saindo das guitarras e bateria, mas sem conseguir contagiar por completo o público.

E como nem só de confetes vive o rock, não foi sem hora que os gaúchos do Reação em Cadeia mostraram serviço no palco. Anunciou-se de cara que os representantes das carnavalescas apresentações anteriores poderiam ir a nocaute.

Peso e barulho com pegada pop na medida para ganhar rádios do país – o que começa a acontecer com o lançamento do disco MTV Apresenta – foi uma das bandas que mais empolgaram o público, surpreendentemente cantando muitas músicas do início ao fim. Algumas soaram como um soco.

Mas antes do último round já haviam passado pelo palco os acreanos do Los Porongas, uma das melhores bandas do festival até agora. Coesa, madura com letras inteligentes e um som que para não ficar sem definição, passeia entre o punk rock e o progressivo com muita classe.

Chamou atenção por dar acesso a algo no mínimo curioso: saber que no longínquo Acre, alguém faz música independente e de muita qualidade. Aliás, é um mérito desta edição do festival: diversificação e experiências fora do eixo “sul maravilha”. Que venham mais.

Entre os que defenderam a bandeira potiguar, infelizmente o destaque foi negativo. Os problemas técnicos – que pelo segundo dia consecutivo soaram como um desrespeito às bandas – prejudicaram e muito a apresentação do Automatics. A banda, tensa, ficou impossibilitada de mostrar tudo que sabe, da melhor forma.

Mesmo assim o grupo soube driblar os percalços e para quem quis ouvir, mostrou seu punk-noise-rock com cheiro de anos 70. Uma nova chance ano que vem para compensar, não seria má idéia.

O Revolver, lançando seu primeiro trabalho pelo incansável Selo DoSol, fez um bom show, mas sem muito alarde. O som da banda às vezes procura uma identidade, não sabe se é pop ou rock and roll e acaba confundindo os ouvidos. Ainda precisa de muita estrada, mas ela virá, pois há potencial.

Mais à frente os selvagens d’Os Bonnies com seu rockabilly envenenado. A crueza deles empolgou o público fiel à banda, chamou atenção dos curiosos, mas não foi uma apresentação memorável. A postura “to nem aí para o mundo”, com declarações do tipo “Era melhor estar dormindo, mas mesmo assim foi massa!” pode com o tempo não ter graça nenhuma, por mais sincera que seja.

Entre o escracho d’Os Bonnies e o nocaute do Cachorro Grande, a baiana Pitty levou muitos, muitos teens à loucura. A roqueira que vem quebrando alguns parâmetros na relação rock independente-rock maisntream não decepcionou os fãs, fez um show pesado, com atitude e exibindo algumas vezes um notável amadurecimento na voz.

O curioso nisso tudo é ver alguém com uma postura tão roqueira, atraindo fãs como se fosse uma Sandy punk. Mas que continuem com Pitty mesmo, vai fazer muito bem a todos eles no futuro.

E ela foi o gongo que soou anunciando a chegada do melhor show do MADA 2006 até então: Cachorro Grande. Repaginando o rock dos anos 60-70, a banda foi muito competente e segurou boa parte do público que imaginava-se, iria embora logo após a Pitty.

Ledo engano. Muita gente conferiu a pancada da banda, a presença de palco contagiante, além claro, de um rosário de músicas que foram desde a fase independente e longe da mídia, até o acesso radiofônico que tomou conta do último disco.

Para quem não sabia o que esperar da banda, até então virgem de palcos natalenses, não foi possível contar até dez. O rock nocauteou geral. E todo mundo saiu ganhando.

De derrota por W.O. só mesmo a ausência da banda paraibana Zeferina Bomba. O grupo fez feio ao não dar nenhuma satisfação, tanto à organização quanto ao público. Mas no fim das contas ninguém sentiu a falta e até ajudou a compensar o atraso inicial.

Foi uma bela noite. Com apresentações para todas as idades, de pais cuidadosos acompanhando os filhos bem novos, ao público já calejado de tanto rock and roll. Além das plumas – ou seriam penas? – que voaram ao longo da maratona de shows.

2 Comments:

Anonymous Halana Chrisk said...

Não tive coragem de ler seus escritos. Não consumi MADA esse ano (sem arrependimentos).
Menino vc vai casar? Show! TE desejo a felicidade que você merece elevada ao quadrado.
Desejo que vocês se casem com comunhão de segredos!
Com carinho,
Halana Chrisk

7:58 PM  
Blogger .: Renata Marques :. said...

... só uma observação! A música 'loirinha americana' é do próprio mestre laurentino, e não de Gilberto Gil como vc falou. ;)

5:52 AM  

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