Fio a fio
- É curioso. Ou não. Mas eu só consigo perceber o avanço da medicina quando faço uso de corticóides e/ou antibióticos. Estive num desconforto imenso esses dias por causa de uma infame virose. Poucas horas depois de aplicá-los, podia jurar que nada havia me ocorrido. Corticóides e antibióticos. Pelo conforto e rapidez nos efeitos, são na minha mente mazelada o que há de mais moderno na medicina.
- É estranho como há algo dentro de mim que às vezes comemora o número de suspeitos mortos no conflito da polícia com o PCC em São Paulo. Mas não posso dar espaço a isso. Seria legitimar a barbárie, justificar o caos com mais caos. Pena de morte? Bobagem. Qualquer bandido já sai de casa todos os dias com a sentença de morte anunciada na testa. A morte é rotina pra eles. Não surte efeito legalizá-la.
Por mais assustador que seja ver uma foto da Avenida Paulista vazia às oito da noite, não deixa de ser interessante ver transferida a realidade de qualquer periferia dominada pelo crime para o centro financeiro do país, onde se decidem muitos futuros, inclusive o da periferia. O que se viu na Paulista é o que se vê em qualquer favela com toque de recolher corriqueiramente.
Ler Mônica Bérgamo relatando a decepção do high society paulista por ter que adiar algumas festas caríssimas e perder algumas garrafas de champagne que já estavam "no gelo" em plena crise é perceber o fosso em que nos encontramos. Não pelo ato de relatar, mas pelo que se relata.
Ricaços, façam alguma coisa! Não se vive por muito tempo encastelado num mundo paralelo. Um dia eles vão sair dos buracos, descer dos morros e mostrar o que nós produzimos com tanta indiferença. E pior: que não há nada mais democrático no mundo do que o medo.
- Como pinto no lixo. Tá certo que com um atraso de meses em relação aos grandes cinemas do país, mas e daí? De uma tacada só: "Boa Noite, e Boa Sorte", "Todas as Crianças Invisíveis", "Missão Impossível III", "Match Point - Ponto Final" e revi, com a "administradora", "Terapia do Amor". Vamos aos fatos:
* Boa Noite, e Boa Sorte: Filmaço. Perdi de vez os últimos décimos de preconceito contra Clooney. O filme é um primor de direção, fotografia, direção de arte. Tudo muito caprichado, com ótimas edição e montagem, sem contar o roteiro impecável. Vá lá, fatos como os retratados ajudam e muito, mesmo assim não sobrepõem a boa produção.
Os editoriais de Edward Murrow contra a inquisição moderna americana parecem ter sido escritos ontem. O que prova mais uma vez, que os problemas são sempre os mesmos, só mudam de cor e tamanho. Cor aliás, que dá um charme noir a película.
O que se retrata no filme é mais uma prova de como apesar de tudo e todos, há nos EUA uma capacidade de mudança e síntese de idéias fantástica. Faz-se das piores coisas, critica-se com a maior das classes. Ah, e ainda tem Ava Gardner...
* Todas as Crianças Invisíveis: Cansativo. Sete curtas metragens mostrando situações dolorosas para crianças ao redor do mundo. Spike Lee cru como sempre, mas com um ar amadorístico na produção, dispensável. Não usou o aparato caprichado dos Scott Brother's, mas poderia ter lançado mão, não tiraria a lascinante idéia do seu roteiro.
Esperei mais de Kátia Lund. Não por "Cidade de Deus", mas pelo leque de opções que o Brasil oferece nesse campo.
Gostei de Emir Kusturica. Fanfarrão, lúdico e sabendo usar o humor para mostrar a dor. John Woo é piegas de dar dó. Pouco recomendável para diabéticos o roteiro dele. O que poderia ser caprichado, virou brega de doer. O que não acontece com Stefano Veruso, o diretor italiano. A história de Ciro além da belíssima fotografia, tem bom roteiro e um protagonista promissor.
* Missão Impossível III: Melhor que o anterior da trilogia. Philip Seymour Hoffman impecável. Tom Cruise com alguns tiques nervosos que sobraram de Guerra dos Mundos. Pra quem quer ação, não há do que reclamar. É barulho pra dar e vender, sequências muito bem sicronizadas e uma cena irada: Cruise lendo os lábios do seu superior. Pipocão dos bons. Não tem arte, não tem explicações filosóficas, clichê do início ao fim, mas é a isso que se propõe o filme, não é mesmo?
* Match Point - Ponto Final: Acho que nunca vi Allen tão à vontade filmando fora de NY. A viagem que a câmera faz por Londres e seus lugares não-turísticos, comuns a quem vive lá é saborosa. Assim como Scarlet Johansson, transbordando lábios, peitos e calor. Um duelo constante e prevísivel - nem por isso menos charmoso - do mais apurado conservadorismo inglês, com o despudor americano. Quase uma Jane Austen envenenada em sua luta romântica de classes.
O roteiro é bem "novela da Globo", tramas previsíveis, mas sempre com o humor ácido de Allen pondo o dedo em riste na cara de alguém. As mulheres podem sair do cinema putas com a forma que são retratadas: histéricas, burras e descontroladas. O final vale o ingresso. É Allen, por menos grandioso que seja como antigamente, antes ele do que qualquer roteiro vagabundo por aí.
- Washing Machine, do Sonic Youth, é das coisas mais sublimes que uma banda poderia ter produzido em cinco décadas de rock and roll.
- Frederic Boilè, o francês dos mangás mais charmosos do mundo volta com tudo em "Garotas de Tóquio". Vale o investimento. Caso ainda não conheça o cara, comece por "O Espinafre de Yukiko". Putarias orientais e bolinações discretas.
- Sim, vou ver "Código Da Vinci" sexta-feira.
- Compre, baixe, faça o que for mas não deixe de ouvir: The Back Room - Editors, Versus - Kings of Convenience.
Extra: E já que eu falei do Sonic Youth, por que não ouvir a melhor música do disco Washing Machine?Clique aqui e faça o download de Diamond Sea.
- É estranho como há algo dentro de mim que às vezes comemora o número de suspeitos mortos no conflito da polícia com o PCC em São Paulo. Mas não posso dar espaço a isso. Seria legitimar a barbárie, justificar o caos com mais caos. Pena de morte? Bobagem. Qualquer bandido já sai de casa todos os dias com a sentença de morte anunciada na testa. A morte é rotina pra eles. Não surte efeito legalizá-la.
Por mais assustador que seja ver uma foto da Avenida Paulista vazia às oito da noite, não deixa de ser interessante ver transferida a realidade de qualquer periferia dominada pelo crime para o centro financeiro do país, onde se decidem muitos futuros, inclusive o da periferia. O que se viu na Paulista é o que se vê em qualquer favela com toque de recolher corriqueiramente.
Ler Mônica Bérgamo relatando a decepção do high society paulista por ter que adiar algumas festas caríssimas e perder algumas garrafas de champagne que já estavam "no gelo" em plena crise é perceber o fosso em que nos encontramos. Não pelo ato de relatar, mas pelo que se relata.
Ricaços, façam alguma coisa! Não se vive por muito tempo encastelado num mundo paralelo. Um dia eles vão sair dos buracos, descer dos morros e mostrar o que nós produzimos com tanta indiferença. E pior: que não há nada mais democrático no mundo do que o medo.
- Como pinto no lixo. Tá certo que com um atraso de meses em relação aos grandes cinemas do país, mas e daí? De uma tacada só: "Boa Noite, e Boa Sorte", "Todas as Crianças Invisíveis", "Missão Impossível III", "Match Point - Ponto Final" e revi, com a "administradora", "Terapia do Amor". Vamos aos fatos:
* Boa Noite, e Boa Sorte: Filmaço. Perdi de vez os últimos décimos de preconceito contra Clooney. O filme é um primor de direção, fotografia, direção de arte. Tudo muito caprichado, com ótimas edição e montagem, sem contar o roteiro impecável. Vá lá, fatos como os retratados ajudam e muito, mesmo assim não sobrepõem a boa produção.
Os editoriais de Edward Murrow contra a inquisição moderna americana parecem ter sido escritos ontem. O que prova mais uma vez, que os problemas são sempre os mesmos, só mudam de cor e tamanho. Cor aliás, que dá um charme noir a película.
O que se retrata no filme é mais uma prova de como apesar de tudo e todos, há nos EUA uma capacidade de mudança e síntese de idéias fantástica. Faz-se das piores coisas, critica-se com a maior das classes. Ah, e ainda tem Ava Gardner...
* Todas as Crianças Invisíveis: Cansativo. Sete curtas metragens mostrando situações dolorosas para crianças ao redor do mundo. Spike Lee cru como sempre, mas com um ar amadorístico na produção, dispensável. Não usou o aparato caprichado dos Scott Brother's, mas poderia ter lançado mão, não tiraria a lascinante idéia do seu roteiro.
Esperei mais de Kátia Lund. Não por "Cidade de Deus", mas pelo leque de opções que o Brasil oferece nesse campo.
Gostei de Emir Kusturica. Fanfarrão, lúdico e sabendo usar o humor para mostrar a dor. John Woo é piegas de dar dó. Pouco recomendável para diabéticos o roteiro dele. O que poderia ser caprichado, virou brega de doer. O que não acontece com Stefano Veruso, o diretor italiano. A história de Ciro além da belíssima fotografia, tem bom roteiro e um protagonista promissor.
* Missão Impossível III: Melhor que o anterior da trilogia. Philip Seymour Hoffman impecável. Tom Cruise com alguns tiques nervosos que sobraram de Guerra dos Mundos. Pra quem quer ação, não há do que reclamar. É barulho pra dar e vender, sequências muito bem sicronizadas e uma cena irada: Cruise lendo os lábios do seu superior. Pipocão dos bons. Não tem arte, não tem explicações filosóficas, clichê do início ao fim, mas é a isso que se propõe o filme, não é mesmo?
* Match Point - Ponto Final: Acho que nunca vi Allen tão à vontade filmando fora de NY. A viagem que a câmera faz por Londres e seus lugares não-turísticos, comuns a quem vive lá é saborosa. Assim como Scarlet Johansson, transbordando lábios, peitos e calor. Um duelo constante e prevísivel - nem por isso menos charmoso - do mais apurado conservadorismo inglês, com o despudor americano. Quase uma Jane Austen envenenada em sua luta romântica de classes.
O roteiro é bem "novela da Globo", tramas previsíveis, mas sempre com o humor ácido de Allen pondo o dedo em riste na cara de alguém. As mulheres podem sair do cinema putas com a forma que são retratadas: histéricas, burras e descontroladas. O final vale o ingresso. É Allen, por menos grandioso que seja como antigamente, antes ele do que qualquer roteiro vagabundo por aí.
- Washing Machine, do Sonic Youth, é das coisas mais sublimes que uma banda poderia ter produzido em cinco décadas de rock and roll.
- Frederic Boilè, o francês dos mangás mais charmosos do mundo volta com tudo em "Garotas de Tóquio". Vale o investimento. Caso ainda não conheça o cara, comece por "O Espinafre de Yukiko". Putarias orientais e bolinações discretas.
- Sim, vou ver "Código Da Vinci" sexta-feira.
- Compre, baixe, faça o que for mas não deixe de ouvir: The Back Room - Editors, Versus - Kings of Convenience.
Extra: E já que eu falei do Sonic Youth, por que não ouvir a melhor música do disco Washing Machine?


4 Comments:
o protagonista de Ponto Final é fraco demais...
beijos,
violeta
o protagonista de Ponto Final é fraco demais...
beijos,
violeta
Diamond Sea = Sem condiçoes
Bikini-outro post- Mada=Música Alimento da Alma.
A minha alma não come coisa com mais de um mês de congelada. Imagine se vou engolir algo sem sal e "congelado" pra mais de 12 anos.
ei, mas digaí... a scarlett tá gostosa em match point, hein?? ô beleza!
e boa noite, boa sorte? que filme bom!! devia ser recomendado às turmas de jornalismo pra ver se o povo desenvolve um pouco de senso crítico.
:*
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