Thursday, May 25, 2006

Código? Onde?!

A grande, e inútil, discussão travada desde o lançamento do livro O Código Da Vinci é, na verdade, um retrato ampliado da eterna pendenga “cultura x erudição x cultura pop”.

Como se o ideal fosse estar preso num dos protagonistas desta celeuma, em vez de mesclar determinados limites e elementos para que fossem formadas opiniões se não mais embasadas, ao menos mais livres de pré-conceitos.

O Código Da Vinci não é, nem nunca será, cultura no sentido erudito do termo. É superficial, evasivo e serve com muita classe a tudo que se propôs como um elemento de cultura pop: vender e causar polêmicas vazias.

Acreditar, por exemplo, que Jesus teve um romance com Maria Madalena, além de não manchar em nada o legado de sua pregação, não fere nenhum dogma da Igreja Católica pelo simples fato de isso nunca ter representado um dogma para ela.

A Igreja, aliás, sai ilesa da guerra de informações contra o romance. Tratada de forma respeitosa e sem generalizações, é quem menos deveria reclamar. Já à Opus Dei ficou reservado um lugar junto à Maçonaria, no rol de especulações e ilações difusas sobre instituições.

Por outro lado, tal informação, tão antiga quanto a mania de conspirações deste mundo helênico-judaico-cristão, soa como manchete requentada a quem se deteve num mínimo de interesse pela história do catolicismo.

O sucesso de O Código Da Vinci é, portanto, proporcional a sua superficialidade com toques de Indiana Jones em slow motion. Nenhum dos temas abordados é novidade, mesmo para quem não leu o livro mas viu o filme.

O mérito de Dan Brown, autor do livro, é ter levado a milhões de maus leitores – listam-se aqui “n” motivos pelos quais se lê pouco e mal, por exemplo, no Brasil – um roteiro hollywoodiano com a falsa impressão de ser cultura da mais erudita, e mais, mexer com um misticismo que, queira ou não, faz parte do nosso dia-a-dia e da nossa formação cultural.

Priorado de Sião, Templários, Santo Graal, Opus Dei, Maria Madalena e tantas outras lendas e informações atravessadas sobre coisas pouco conhecidas – muitas vezes mais por incapacidade investigativa e intelectual do que por ausência de elementos comprobatórios – carecem de um roteiro policial para que sejam assentados no senso comum, para que se desperte a paixão da maioria dos leitores.

No entanto, não vamos cair no erro de achar que se deve ler com um único intuito de se tornar alguém culto e erudito. A leitura deve ser algo prazeroso, o que implica a diversão individual. Nada contra o prazer da leitura, mas é preciso desenvolver a capacidade de filtrar o que se lê, de absorver o conteúdo com limites.

Muito antes d’O Código Da Vinci, Umberto Eco escreveu, ainda na década de oitenta, O Pêndulo de Focault. Como é tradição nos livros de Eco, os temas são abordados de maneira criteriosa, investigativa e, mesmo quando envoltos pela ficção, baseados em fatos comprováveis e em exaustivos estudos.

Por que, então, O Pêndulo de Foucault não fez tanto ou mais sucesso que O Código Da Vinci? Pela falta de acessibilidade à maioria das pessoas. Para níveis medianos ou intenções de mera diversão, estudos aprofundados são sempre chatos e tediosos. Não é o caso d’O Código. Imagine Jesus, Madalena, Isaac Newton e Amélie Poulain no mesmo barco. Vale ao menos uma espiadinha.

A mistura de narrativa de vídeo-clipe com personagens saídos de um filme estrelado por Bruce Willis ou Morgan Freeman (nas suas concessões duvidosas em filmes policiais), torna-se muito mais atraente do que informações levadas às últimas conseqüências do academicismo.

O Pêndulo é cultura, O Código não. Um informa, outro apenas diverte – o que não quer dizer que o primeiro não divirta. O lado negativo é dar ao leitor a impressão de ter repassado, em cada página, fatos concretos, subjugados pela retórica e pela sedução do tema.

Cabe ao autor um mínimo de responsabilidade. Ao leitor, bom senso e informação. Bom senso para concordar que o filme nada mais é do que o retrato fiel do livro. As arestas ficam por conta da capacidade imaginativa de quem lê, moldando cada personagem ao seu bel prazer e, claro, ignorando as falhas gritantes de um roteiro que não soube reaproveitar personagens e ganchos excitantes.

Tom Hanks, como o investigador Robert Langdon, e Jean Reno, como o policial Bezu Fache, beiram o ridículo em suas atuações. Basta ver a expressão de Hanks ao informar à eterna Amélie, Audrey Tautou, que ela é a descendente de Cristo. A expressão cairia bem ao ex-Forrest Gump caso dissesse que havia derrubado um pacote de biscoitos.

O Bispo Aringarosa, vivido por Alfred Molina, chega a nos compadecer com sua imagem perdida, ausente, como se tivesse acabado de passar na calçada do estúdio e fosse raptado para filmar no set.

O didatismo do filme irrita, mas levando em consideração a quantidade de pessoas que não leram o livro e, mesmo assim, foram incensados por sua repercussão, vê-se a utilidade da estratégia. E convenhamos, foi uma boa idéia ver alguns fatos do passado retratados como em “hologramas” nas cenas atuais.

O mais enfadonho, e é aí que se comprova a superficialidade com a qual os temas do livro são abordados, é justamente a reviravolta à espreita em cada cena. Alguns personagens, como Leigh Teabing, vivido pelo competente Sir Ian McKellen, parecem ter sido jogados dentro da trama apenas para validar as explicações mirabolantes que o autor tem a dar como se fossem fatos.

Ironicamente, é de McKellen a atuação mais caprichada. O roteiro não acompanha, nem de longe, a quantidade de informação à disposição do leitor/espectador. Damo-nos conta disso quando percebemos que, em poucas horas, Langdon saiu de uma palestra bem interessante sobre simbologia para descobrir um grande mistério da humanidade, ali, bem embaixo dos seus pés.

Se as quase três horas de filme cansam, vale como consolo a sequer cogitação de Peter Jackson na direção. Imagine uma corrida de dinossauros no Louvre. Por Alá, o que sobraria da Monalisa?

No mais, saímos do cinema, mesmo após o afinco com que os protagonistas se dedicam ao tema, sem saber de muita coisa. O que Leabing afirma, Sophie repete, Landgon duvida, mas no fim todos concordam.

Vale pelas seqüências no Louvre, pelo detalhe de algumas obras de arte, mesmo acompanhadas de uma trilha sonora claudicante. Além, claro, da certeza de que o albino autoflagelante com lentes de contato azuis e cabelo descolorido com água oxigenada é primo legítimo do diabo retratado em A Paixão de Cristo, de Mel Gibson.

Mas aí são outros quinhentos. E, obviamente, milhares de possíveis teorias conspiratórias. Fetiche de usuários do Google. O Código Da Vinci não é nada mais do que isso. Mas se você se diverte, enfim, que problema há nisso?

8 Comments:

Blogger Márcio said...

Eu acho que o erro seja talvez procurar e/ou esperar demais do filme. Eu achei bem divertido e interessante. Tudo bem que o "grande mistério" foi muito pré-explorado pela imprensa em geral, mas eu acabei me divertindo sim.

4:28 PM  
Blogger Ana said...

Eu achei a nova perspectiva do Santo Graal realmente revolucionária, libertadora. Tudo bem que o mérito vai para os historiadores, e não para o filme. No mais, tua resenha tá totalmente apoiada. Só mais duas coisas: a trilha sonora distorcida em recurso de teclado de pizzaria merece mais destaque... pelo bizonho. E a chapinha do Tom hanks definitivamente não lhe caiu bem.
Aninha

8:41 PM  
Anonymous Julia said...

O começo foi lento, da metade para o final parece que olharam para o relogio e disseram "temos que acelerar o filme". Tom Hanks estava sem sal, para o Bispo Aringarosa pensei no F. Murray Abraham ficaria perfeito. Gostei do tour feito no louvre e por Londres. Empolgante para muitos, mas para mim foi sonolento, que me desculpem os fãs.

8:41 PM  
Anonymous Anonymous said...

o livro é uma merda, mas quero falar da sua resenha. confusa, parece que vc tava mais preocupado com o vocabulário que com as conclusões. o filme é ruim, você diz, e no final me vem com: mas se vc se diverte, que mal há nisso? o nome dessa resenha devia ser O Código Levino.

Bjos =*
Jão Saraiva

5:05 AM  
Anonymous Anonymous said...

Em compesação, Levino, O Nome da Rosa foi um best-seller estrondoso. Vendeu bem antes de virar filme e virou febre após a adaptação cinematográfica. Mas, permita-me observar, até que ponto se pode afirmar que um é cultura e o outro não? Só por que uma pesquisa foi mais bem feita que a outra? Ou será que, independente disso, o estilo de um autor é mais consistente que o outro? Mas isso é critério para definir o que é cultura? É algo a se pensar. Eu acredito que os dois estão no mesmo patamar. Acontece, citando o exemplo de O Nome da Rosa, que no Código se trata de temas mais familiares ao espectador comum (refiro-me aqui às especulações acerca do Cristianismo, porque duvido que todo mundo seja PhD em Da Vinci). O que surpreende em Eco são os níveis de leitura da obra. Todo mundo se fixa na trama policial, mas as nuances intelectuais (e as centenas de citações em latim), estas só um leitor mais atento, mais culto, pode alcançar. Esse mesmo comentário também pode ser perfeitamente aplicado a Pêndulo e ao Código, com a diferença que um leitor especializado deveria cair de rir com o último. Ainda assim,torno a repetir, tanto um como o outro são cultura. Resta ao leitor definir de que tipo.

Alex

1:07 PM  
Anonymous Anonymous said...

Leviano, eu não li o livro (e parece que não lerei), ainda não vi o filme. Vi apenas os documentários que pipocam por aí tentando desvendar o Código da Vinci. Quando ficar mais vazio o cinema passo por lá para conferir, mas nenhuma publicidade me fará ficar horas antes numa fila. Gravas me causaria isso, mas o filme dele aqui tem salas vazias... Bom pra mim!!!!
beijinho,
Violeta

9:51 PM  
Anonymous Anonymous said...

Homi, eu não tenho que comer bosta pra saber que é ruim, né?
Quem sabe para frescar durente três horas...
...é tempo demais. Acho que não consigo. Não sou tão criativo.

Caçador de arribaçã(treinador te Tom Cruise em M:I:III)

7:54 AM  
Anonymous Anonymous said...

Como se escreve arribaçã?

7:55 AM  

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