Lost in translation
Dou de ombros, e continuo cada vez mais apaixonado pelo filme, que graças a uma locadora que resolveu fazer liquidação do estoque de VHS, repousa agora sobre minha estante.
Qual o segredo da minha paixão? A delicadeza, honestidade e simplicidade do roteiro. É um filme pequeno, minimalista que não leva para a tela grandes histórias sobre feitos heróicos ou amores absurdos, pelo contrário.
Esse é pra mim, o maior encanto da película: a plausibilidade dos fatos. Quando a Academia deu-se a oportunidade de levar ao Oscar um filme sobre tédio, insônia e duas vidas completamente diferentes se cruzando por pura solidão? Lembre aí.
Eu sempre gostei de pensar que cinema é só mais um espelho da vida. Então, o que está mais próximo de mim? Uma manada de portugueses ensandecidos por ruelas para acompanhar um pedido de casamento, ou uma menina de vinte e poucos anos solitária, insone e cansada do casamento prematuro de dois anos?
Eu me apaixonei pela condução de Sofia Coppola, economizando nos diálogos, transformando um amontoado de concreto e neon em cupido, uma cidade que envolve duas pessoas lentamente.
É interessante demais ver a câmera deslizar lentamente pelo corpo de Scarlet Johansson na seqüência inicial, rir com o humor ácido e desiludido de Bill Murray, numa interpretação arrebatadora.
Encontros e Desencontros é uma das coisas que eu costumo chamar de “palhaço na corda bamba com um monte de gilete ao invés de rede lá embaixo”. E um filme tenso, porque a vida é tensa.
É esse o único clichê do filme: encontrar abrigo nos pequenos prazeres. O que não deixa der ser verdade. De um cigarro tragado com força por Charlotte, a admiração de Bob com os telões no centro de Tóquio.
Faz rir com cenas bizarras como Bob atordoado sem conseguir parar uma máquina de spining, para logo depois se tornar aconchegante, triste, silencioso. É um filme existencial, de perguntas que não precisam ser ditas pelos personagens. Estão todas no semblante de cada um, em suas atitudes, nos seus medos.
E o que dizer sobre a trilha sonora? O filme é tão auditivo quanto visual. O que você não conseguir captar nos diálogos, certamente vai encontrar nas músicas.
Tem a crueza de Death in Vegas com Girls, a melancolia de Sometimes do My Bloody Valentine, a psicodelia pop do Air, a balada gostosa do Phoenix com Too Young, o desfecho impecável ao som de Just Like Honey, do Jesus and Mary Chain.
Que final poderia ser tão surpreendente quanto um segredo dito no ouvido de Charlotte, por Bob, em meio a centenas de pessoas atravessando a rua e arrancando dela um sorriso lindo?
Se você acha que cinema é ilusão, e que cada um cria a sua, eu acho mágico a história que ela nos oferece com aquele sussurro. O que ele disse a ela?
Lindo pra mim é a rotina, o palpável, o que eu posso viver, ou vivi. Pra mim é doloroso e inútil identificar-se com um personagem que viveu por você algo que você sempre quis e nunca teve coragem, e achar que ele é a sua cara.
Lírico é o que acontece todo dia, seja em quartos de hotéis ou no meio das avenidas, com milhares de vidas e sentimentos que ninguém conhece.
Essa é a magia de Encontros e Desencontros: captar mais um sentimento perdido no meio do mundo, e mostrar como a vida da pessoa mais solitária, não deixa de ser poética.
Fantástico pra mim, é ver Scarlet Johansson cantando Bress in Pocket do Pretenders. O resto é bobagem.






