Thursday, July 13, 2006

Casa nova...

Então galera, faz um tempo que não consigo atualizar esse blog satisfatoriamente. Apesar de estar com uma pá de coisas legais para comentar, a correria me impede de tecer maiores comentários.

Em respeito aos meus seis leitores, resolvi deixar as coisas mais práticas: a partir de hoje as confissões deste curioso a respeito de filmes, livros, discos e fatos cotidianos - que é o que faço aqui - poderão ser lidas lá no
  • MATRIZ ON LINE FORA DO EIXO
  • .

    Por causa do contrato com dona Mila Chaseliov - a dona do pedaço - preciso atualizar a coluna semanalmente, o que me dá disciplina, coisa rara no caos do meu dia-a-dia.

    Então fica certo assim, ok? Toda terça-feira uma crônica garantida, uma música para baixar e claro, estou pensando numa forma de tratar de mais assuntos lá na coluna, ao invés de escrever monotematicamente.

    É isso. Conto com os comentários de vocês!

    Tuesday, July 04, 2006

    Bobby pai, filho, o escambau!

    Dia desses, enquanto me distraía bolinando umas estantes da livraria próxima à minha casa – às vezes de tanto tempo que permaneço nela, sinto como se fosse uma extensão da própria -, deparei-me com um título curioso: “Dez Passos de Como se Tornar Um Líder”.

    Não me dei ao trabalho de sequer ler a orelha do tal livro. A verdade é que agora, quando tenho em mãos o novo disco do grupo inglês Primal Scream, “Riot City Blues”, a única coisa que consigo imaginar é que nenhum livro de Deepak Chopra ou Lair Ribeiro terá lições suficientes de como ser um líder, caso não tenha entre os dez passos: “seja um Bobby Gillespie”.

    Tendo que dividir os ouvidos entre quem pedia para ser adorado, como Ian Brown do Stone Roses, e os que independente de tanta carência já se bastam com sua petulância, como os irmãos Gallagher, ouvir Bobby Gillpespie é ter certeza de que o pop inglês tem o mesmo dono há 20 anos.

    Onde, em qualquer esquina, vamos encontrar à venda uma biografia tão peculiar? Ele tem razão quando canta “I don’t born to follow”. Meninos, ele estava lá quando o Creation – o selo mais lendário do rock inglês – foi forjado por Alan McGhee.

    Só um líder diria “Não!” ao Jesus & Mary Chain depois de lançar o clássico “Psichocandy” e marcar toda uma geração de rockers, indies e o caralho, para logo adiante direcionar outra geração, misturando rock e música eletrônica num dos discos mais importantes de todos os tempos: “Screamadelica”, de 1991.

    É de Gillespie a releitura do Flower Power que deu novos moldes aos costumes dos jovens ingleses no início da década passada. O que os moderninhos e entendidos hoje chamam de rave, na verdade foi esboçado por ele, na mistura bem dosada de batidas eletrônicas frenéticas, lasers, vocais chapados e um apelo inconteste para “abrirmos nossas mentes”.

    Um mundo sem Gillespie seria um mundo sem o eletrorock, sem Chemical Brothers, Prodigy, LCD Soundsystem, Vive la Fête!, She Wants Revange, Cansei de Ser Sexy ad infinitum.

    Há dez anos, enquanto todos apontavam dedos para o que seria a desistência da revolução eletrônica iniciada em “Screamadelica”, com o disco “Give Out But Don’t Give Up” de 1994 – um olhar mais stoneado e conservador sobre o rock -, as salas de cinema foram invadidas pela direção de vídeo-clipe que consagrou o filme Trainspotting, mas também por sua faixa-título. Era um aviso: Bobby Gillespie está vivo.

    Ian Brown perdeu um adorador quando Gary “Mani” Mounfield juntou-se ao Primal Scream em “Vanishing Point”, o elogiado trabalho de 1997, onde Bobby comandou uma nova roupagem para o dub. O pop inglês apenas ratificava quem tinha nascido para ser seguido, e quem deveria seguir o quê.

    Siga o meu conselho e não deixe de ter "Riot City Blues” na sua estante. Esqueça o que você ouviu em “Evil Heat” e “XTRMNTR”, e caso não tenha ouvido nada até aqui, abra a sua mente. Bobby está de volta. E volta mais cru, num disco gravado em formato ao vivo, stoner, consistente e alheio à própria revolução. Será que ser radical hoje em dia é mostrar-se conservador?

    Não há palavra mais esquisita para definir um trabalho artístico do que “maduro”, no entanto, a meia idade de Gillespie parece fazer sombra no novo disco.

    Depois de teclados vintage, disco e fusion, o que se ouve em “Riot City Blues” é um pequeno tratado de volta ao passado. Rock and roll da melhor qualidade e do que Primal Scream faz muito bem.

    Há um discreto banjo em “Country Girl”, o que de certa forma anuncia que a vanguarda ficou para trás. De um gospel que chama às palmas em “Nitty Gritty”, Bobby conta com sua banda a história de um travesti arrebentando o carro depois de uma overdose, em “Suicide Sally & Johnny Guitar”.

    As referências aos trabalhos anteriores ficam resumidas a “Little Death” e “When the Bombs Drops”. Nesta, um contido Gillespie canta apoiado no suporte impecável do baixo de Gary. Naquela, há algo dissonante em relação a restante do disco. Perdoável, diga-se de passagem.

    A partir daí, "The 99th Floor" , "We're Gonna Boogie" e "Dolls (Sweet Rock and Roll)" – com a participação de Alisson “VV” Mosshart, do The Kills – fecham uma trinca de referências que vão de Bob Dylan e T. Rex, até desaguar na cowntry (?!) “Hell’s Comin Down”.

    “Sometimes I Fell So Lonely” fecha com chave de ouro um bom disco de rock and roll. Não é um disco fantástico, não tem cartas na manga nem um novo norte para a música. Tem muito mais chances de seduzir os ouvidos leigos em relação ao que o Primal Scream já produziu no terreno arriscado da música eletrônica.

    A produção, que conta com a participação luxuosa de Will Sergeant (Echo & The Bunnymen) e Warren Ellis (Nick Cave & The Bad Seed), é uma volta a mais na órbita do pop inglês, que de tempos em tempos, desde 1985, nos faz lembrar que Gillespie é quem sabe das coisas.

    Não demora e estarei de volta à livraria, bolinando alguns livros em busca de novos conhecimentos. Quanto do pouco que sei, algo consegui ouvindo Primal Scream. Se não aprendi a ser líder, ao menos sei de quem ser um liderado. Eu quero ser Bobby Gillespie.

    Friday, June 23, 2006

    Hard-Fi

    - Eu sei que minha assistência a esse blog beira o abandono, mas prometo dar um jeito nisso.

    Meu tempo continua escasso (pra não dizer escravo). Quando eu achava que ia me dar descanso depois de duas semanas mergulhado num trabalho extra, concretizo o avisado no post anterior: eu tenho mesmo um gosto sádico por esgotar todo o meu tempo livre. Resolvi ser o capataz de mim mesmo e me presentear com mais um projeto.

    Explico: todo sábado a partir das 18 horas, na FM Tropical, estarei no comando do 103 Hype. Um programa de informação e música. Música, música, música, cinema, quadrinhos e esportes radicais. Em doses pequenas claro, o mais importante é o som.

    Portanto, foi esse o tal projeto que tomou o meu tempo na última semana. Na verdade ele já vinha sendo trabalhado há meses, mas como tudo se definiu só agora, a correria foi enorme pra deixar a casa em ordem.

    E está. Todas as vinhetas, teasers, músicas, notas, informações, tudo pronto. Como um Todynho, que agora pode ser o seu companheiro de aventuras no início da noite do sábado.

    O foco é estar sempre ligado no que toca lá fora, nas bandas novas, promessas, mas com uma pitada de pop, afinal de contas, de indie chato basta eu. Ah, e informar sobre os principais lances do cinema e dos quadrinhos. É isso. Espero que gostem. Caso não, mudem de estação, a vida é democrática =)

    Ps1.: No primeiro programa rola a porrada do Wolfmother, o hype do Cansei de Ser Sexy e mais umas surpresinhas aí. Aguardem. Ouçam.

    - O melhor da Copa tem sido poder trabalhar em paz quando o mundo pára. Êta sossegão! Ninguém perturba, ninguém procura, ninguém pede nada e assim eu adianto tudo.

    - Tô devorando o que posso de livros! Maravilha! Acho que nunca estive com a leitura tão em dia, apesar da falta de tempo. Acho que a pressão me fez otimizar o tempo que sobra e reaproveitar o ocupado. E como ando bem satisfeito e caridoso esses dias, vai umas dicas:

    * Os Senhores do Crime - Jean Ziegler.
    * Jesus e Javé, Nomes Divinos - Harold Bloom
    * Onde esta a sabedoria? - Harold Bloom
    * Entre a Mentira e a Ironia - Umberto Eco
    * Seis Passeios Pelo Bosque da Ficção - Umberto Eco

    - Se quiser leitura rápida e de qualidade, não tem escape: a TPM desse mês vem na medida. A SET idem, com uma matéria irada sobre o novo Superman, que aliás estreou com ótimas críticas. A Bizz vem mais ou menos. A Playboy sensacional! Abaixo as máquinas de silicone!

    - Ando lendo o mínimo possível sobre política. E quando leio, parece que a leitura está atualizada. Sacou?

    - Hum... Essa semana não tem música pra download, fico devendo. Mas se quiser adiantar o serviço, use o seu e-mule e baixe:

    * Hard-Fi
    * The Living Things
    * She Wants Revange
    * Keane
    * Mombojó (O Homem-Espuma)

    - Bah! Eu quero cinema! Mas as coisas aqui andam estacionadas em X-Men, Código Da Vinci e Missão Impossível III.

    - É isso. Chegaí! Qualquer hora eu volto e a gente bate um papo. Quem sabe eu ponho algo pra download. Mas só se o tempo der. Enquanto isso, vá ler a minha coluna no portal Matriz On Line. Parece que a coisa tá dando pé. Falows!

    Tuesday, June 13, 2006

    Time

    - Meu tempo encontra-se absurdamente escasso. Nos últimos dias andei trabalhando como um condenado. Mas o pior é que gosto disso - por mais que pareça sádico. Às vezes tenho a impressão que possuo uma capacidade enorme de me adaptar a coisas exaustivas e lineares, desde que mexam mais com meu cérebro do que com músculos. Ainda não sei se isso é bom. Mas não deve ser.

    Por causa da falta de tempo, passei os olhos correndo pelos jornais e revistas. Nada de novo. Nem o que parece ser. Há alguma coisa no mundo que ainda pode chocar?

    - Quanto a invasão do MLST no Congresso Nacional, o que continua cada vez mais claro pra mim é como a política - partidária ou não - no Brasil (se quiser estender-se a América Latina, sinta-se à vontade) não tem parâmetros, ou ao menos parâmetros respeitáveis como o europeu ou a dicotomia americana. A coisa chega a ser surreal.

    Nós temos um movimento de sem-terras comandado por um aristocrata pernambucano, uma sem-terra selvagem que ataca terminais informatizados, frutos do capitalismo e da globalização, usando piercing e tatuagem agregados a um visual mais americano impossível, incluindo o blue jeans igualmente globalizado.

    Por outro lado, quando você procura referenciais, argumentos e análises dos fatos, o que encontra é uma mídia que no mínimo escreve mal pra caralho, sem conhecer o que fala, viciada, parcial e sem embasamento teórico algum.

    Tudo bem que de teoria bastam as plenárias-fetiche da esquerda, mas o que mais se aproxima do palpável, chega a ser ridículo, tratando sempre o espectador deste circo como um palhaço.

    Não quero ler Emir Sader, nem ouvir João Pedro Stédile, da mesma forma que já não tenho saco para a Veja, Época ou Istoé. Com raras exceções - Roberto Pompeu de Toledo e Guilherme Fiúza são duas delas - o que temos acesso (imaginem os excluídos disso tudo) é a um mar de mediocridade, textos pobres, opiniões idem.

    No fim das contas, MSLT, Emir Sader, Veja, Globo, PT, PSDB e tudo que mereça atenção suficiente nesse país, para cair nas mãos dos ditos formadores de opinião, são nivelados por uma linha tão baixa, mas tão baixa, que às vezes acho que é uma vantagem enorme ser um alienado e viver assim: sustentado pelo Bolsa Família, alucinado pra saber quem é o pai de "Zúlia" e esquecendo quem sou, o que sei e só curtindo a Copa do Mundo.

    - Paul Válery tinha razão: "No mundo das crenças, os fatos não penetram". Então me diga como diabos vou explicar a um brasileiro que eu acho futebol um saco, sem importância e que não é charminho meu, mas não consigo me empolgar nem um pouco com o que se vê na TV, 24 horas por dia atualmente? Todo mundo acredita no contrário. Bom, mas tinha que ser assim, afinal a unanimidade...

    - 120 páginas depois de um dia de cão. Foi o que devorei na entrada da madrugada de ontem. "Os Senhores do Crime",de Jean Ziegler. Um mini-tratado sobre a decadência do estado nacional, o domínio do capitalismo, do neo-liberalismo globalizado e sua próxima fase: o crime organizado.

    É assustador e ao mesmo tempo empolgante o que ele relata após anos de estudos, de como o crime organizado já é algo enraizado em todas as esferas do poder mundial. São relatos quase cinematográficos.

    Seja no interior do Mato Grosso ou na Praça Vermelha, existe quase um mundo paralelo, uma Matrix, onde pessoas que têm um poder considerável sobre as nossas vidas de alguma forma, trasitam como meros anônimos, quando na verdade são bandidos da pior estirpe.

    Ratos sanguinários com um acesso incrível aos mais diversos palácios, sejam eles de poder político ou judiciário, impunemente construindo impérios, que quem sabe, esteja Marx errado ou não, abrirão as portas da barbárie capitalista.

    O pequeno resgate histórico da máfia italiana feito por Ziegler é de arrepiar. De como as "famiglias" conseguiram se estabelecer como "protetoras" do feudo na Idade Média, dos invasores na Idade Moderna e dos opressores políticos num passado não muito distante, até serem aos poucos sedimentados no seio da sociedade como uma coisa necessária, romantizada pelo cinema e símbolo de um estado paralelo, quando na verdade, ela atua em boa parte das vezes mesclada com o Estado institucionalizado.

    Basta ver o acerto entre os americanos e as familías mafiosas de NY, que em contato com os capos que ainda estavam na Itália, conseguiram invadir sem problemas a Itália na Segunda Guerra Mundial. E tudo assim, despercebido pela sociedade média.

    Chega a lembrar (e fazer referência) um pouco o Brasil, mas as coisas aqui ainda não são tão profissionais. Ainda. Mas um dia serão. Aliás, não foi um acerto semelhante que Brizola fez com os bandidos cariocas? Ou o governo de São Paulo agora com o PCC? Fica a pergunta no ar.

    O problema é que como eu falei logo acima, aqui não se sabe nem o que danado é socialismo, esquerda, direita, o que dirá capitalismo! E são com as armas do mercado que o crime organizado mais sofisticado atua, claro, deixando um rastro de sangue.

    É isso: no fim, o que você achar mais podre e pensar que o Estado - que existe para proteger o cidadão hipossuficiente - o combate, tenha certeza que são irmãos siameses. Seja lá quem tenha cooptado primeiro um ao outro.

    Ah, e eu já tive o imenso prazer de assistir uma conferência com Jean Ziegler, ao vivo. Não há como esquecer, ele é brilhante.

    - Não vi filmes esses dias. Acho que canalizei todas as minhas energias para o livro acima citado e uns discos que ando ouvindo. Em tempos de futebol, multidão, barulho e falta de bons filmes na salas, eu realmente correria um risco enorme de enlouquecer.

    - Quem puder baixe o último disco do Grandaddy (que o nome esqueço agora). É último mesmo. A banda decidiu que, tendo em vista a inviabilidade financeira de continuar produzindo o seu indie folk rock classudo, não vão mais lançar discos ou fazer turnês. Uma pena. Mas é uma despedida sem erros e sem concessões horripilantes.

    - Mais um disco imperdível: Wolfmother, homônimo. É como um "up grade" setentista, guitarrinhas sem medo do peso, melódicos sem melar a cueca e um vocal quase Ozzy, mas com o seu charme próprio. É um discão. Tocando sem parar por aqui.

    Ok, o titio aqui dá uma colher de chá antes de você comprar o disco, que aliás, chegou ao Brasil essa semana. Mas baixe logo, o link só vale por uma semana (Colossal - Wolfmother):

    http://www.yousendit.com/transfer.php?action=download&ufid=C0BCE9750792C4B4

    (Basta copiar e colar no seu navegador)

    Mais uma? Tudo bem. Como passei uns dias longe daqui, aqui vai uma banda bem decente: Band of Horses. Não tenho certeza, mas o disco não deve ter chegado ao Brasil ainda. Tá aqui embaixo (Wicked Gil - Band of Horses):

    http://www.yousendit.com/transfer.php?action=download&ufid=362B93311A73F976

    - Aliás, tenho uma TV à minha frente enquanto escrevo, sem volume. Mas vou te contar, de onde diabos saiu essa safra de publicitários tão imbecis a ponto de criar comerciais como o da Pepsi, o da Kaiser e/ou o do Guaraná Antarctica?! Minha gente, vocês acham mesmo que alguém vai mudar de refrigerante ou cerveja por causa de um deles? Ou pior: começar a beber por isso?

    - O Brasil acaba de vencer a Croácia por um a zero. Enquanto isso eu escrevia este post, ouvindo Josh Rouse. Mas quer saber? Vou ouvir 1 x 0, de Pixinguinha, interpretada por Rafhael Rabello e Dino Sete Cordas. Um primor da música brasileira.

    Saturday, June 03, 2006

    Desconexas

    - É
  • Time Stops
  • , do Teenage Fanclub, a música que você pode começar a baixar agora. É só clicar e seguir adiante.

    - Estive em Mossoró a trabalho, por dois dias. Confesso que um ranço em relação àquela cidade sempre povoou minhas considerações. Não será mais o caso. Conheci uma cidade completamente diversa de todas as minhas lembranças e impressões. Uma cidade de verdade, desenvolvida na melhor acepção da palavra.

    O que eu vi - saúde funcionando, educação, trabalho, saneamento, habitação, lazer, esporte e cultura - é algo que chega a ser assustador, já que o comum e infelizmente aceitável (vide Natal) é a mais completa ineficiência do poder público.

    Eu cheguei sem aviso prévio em vários postos de saúde da cidade e vi pessoas sendo atentidas com muito respeito, sem filas, com remédios na farmácia pública e médicos disponíveis 24 horas.

    Da mesma forma vi escolas muito bem equipadas, com laboratórios de informática, salas amplas, alunos e professores satisfeitos. Enfim, eu vi uma cidade arborizada e limpa, com lixeiras espalhadas por todos os lugares, inclusive na periferia.

    Vi um dos teatros mais bem equipados e confortáveis que já pude visitar - e foram muitos - com um sistema de som e luz de cair o queixo. E mesmo sem gostar de esporte algum, passei um bom tempo bestificado com a estrutura do ginásio da cidade. Coisa de primeiro mundo, primeiro mesmo, como o da Copa.

    É isso. O que eu vi não me torna uma gralha irritante ou pregador com disciplina de Mórmon, mas uma coisa é certa, aliás, duas: a quem eu puder recomendar a cidade, o farei e descrevendo tudo o que vi, desde que provocado. E outra: já sei para quem será meu voto nas próximas eleições.

    - Nossa, falei tão sério, né? Mas é tudo verdade =P

    - Eu era pra ter comentado antes, mas andei sem muita vontade de escrever: X-Men III é absurdamente lindo. Alguns dois ou três clichês realmente me irritaram (vide o clima Power Rangers em "Nós somos apenas seis, mas vamos lutar como um exército!"), a falta de aproveitamento do Arcanjo, a apatia da Fênix, enfim, mas no geral foi das coisas mais gratificantes sair do cinema depois de ver tudo.

    Sim, tudo, inclusive o que rola após os créditos. Já encomendei os três filmes, ao carinha que vende DVDs piratas ao lado Praia Shopping.

    - Eu às vezes me sinto realmente decadente: tenho ouvido muito Carole King.

    - Putz, sabia que o último lançamento de Philip Roth já chegou ao Brasil? Pois é, levante esse traseiro preguiçoso e viciado em internet da cadeira e compre hoje mesmo O Animal Agonizante.

    Na minha nada modesta opinião, fora os bambas do New Journalism acho que o escritor contemporâneo que melhor traduziu os dilemas do americano médio da metrópole, arraigado nas tradições que nem ele sabe mais de onde vieram e hesitante diante da grande maçã a ser mordida no mundo de tentações mundanas que os EUA produziram, é Roth.

    Com personagens palpáveis, cruéis consigo mesmo, angustiados mas acima de tudo bem humorados, Roth consegue descrever tantos dilemas que é invevitável não nos idenificarmos com alguns deles.

    Mas é tudo falso. Estamos no Brasil, Natal não é New York, e o nordestino é muito mais brucutu do que qualquer judeu tradicional do Queens. Mas vale à pena. É como se Roberto DaMatta misturasse o humor de Jaguar e escrevesse como Ubaldo Ribeiro, só que nascido ali, à beira do Hudson.

    - Ela gosta de Umberto Eco. É capaz de passar horas fazendo críticas literárias interessantíssimas sobre Ítalo Calvino e Nelson Coelho. Ela encontrou uma única vez na vida "A hora do Diabo" de Fernando Pessoa, apaixonou-se. Ela vibra ouvindo Badly Drawn Boy.

    Ela francês ao sabor da ocasião: com sotaque parisiense, de Lyon ou canadense de Montreal. Ela só toma suco se for sem açúcar, "pra sentir melhor o sabor de cada fruta". É minha mulher. E me dá um orgulho monstruoso.

    - "Às vezes eu acho que o mundo é uma cabeça e que nós estamos dentro de uma cabeça, que nos sonha" Trummer.

    - Você vai perder A Profecia, dia 06/06/06?! Eu não.

    - Shiloh?! Alguém me traz uma Berinshelah, faz favor (essa foi podre...)

    - Um dia a gente cansa de dizer o que as pessoas querem ouvir, pra ver o quanto é difícil falar o que elas precisam ouvir.

    - Você já experimentou ouvir o disco Yankee Hotel Foxtrot, do Wilco, num sábado à noite com um red ao lado?

    Thursday, May 25, 2006

    Código? Onde?!

    A grande, e inútil, discussão travada desde o lançamento do livro O Código Da Vinci é, na verdade, um retrato ampliado da eterna pendenga “cultura x erudição x cultura pop”.

    Como se o ideal fosse estar preso num dos protagonistas desta celeuma, em vez de mesclar determinados limites e elementos para que fossem formadas opiniões se não mais embasadas, ao menos mais livres de pré-conceitos.

    O Código Da Vinci não é, nem nunca será, cultura no sentido erudito do termo. É superficial, evasivo e serve com muita classe a tudo que se propôs como um elemento de cultura pop: vender e causar polêmicas vazias.

    Acreditar, por exemplo, que Jesus teve um romance com Maria Madalena, além de não manchar em nada o legado de sua pregação, não fere nenhum dogma da Igreja Católica pelo simples fato de isso nunca ter representado um dogma para ela.

    A Igreja, aliás, sai ilesa da guerra de informações contra o romance. Tratada de forma respeitosa e sem generalizações, é quem menos deveria reclamar. Já à Opus Dei ficou reservado um lugar junto à Maçonaria, no rol de especulações e ilações difusas sobre instituições.

    Por outro lado, tal informação, tão antiga quanto a mania de conspirações deste mundo helênico-judaico-cristão, soa como manchete requentada a quem se deteve num mínimo de interesse pela história do catolicismo.

    O sucesso de O Código Da Vinci é, portanto, proporcional a sua superficialidade com toques de Indiana Jones em slow motion. Nenhum dos temas abordados é novidade, mesmo para quem não leu o livro mas viu o filme.

    O mérito de Dan Brown, autor do livro, é ter levado a milhões de maus leitores – listam-se aqui “n” motivos pelos quais se lê pouco e mal, por exemplo, no Brasil – um roteiro hollywoodiano com a falsa impressão de ser cultura da mais erudita, e mais, mexer com um misticismo que, queira ou não, faz parte do nosso dia-a-dia e da nossa formação cultural.

    Priorado de Sião, Templários, Santo Graal, Opus Dei, Maria Madalena e tantas outras lendas e informações atravessadas sobre coisas pouco conhecidas – muitas vezes mais por incapacidade investigativa e intelectual do que por ausência de elementos comprobatórios – carecem de um roteiro policial para que sejam assentados no senso comum, para que se desperte a paixão da maioria dos leitores.

    No entanto, não vamos cair no erro de achar que se deve ler com um único intuito de se tornar alguém culto e erudito. A leitura deve ser algo prazeroso, o que implica a diversão individual. Nada contra o prazer da leitura, mas é preciso desenvolver a capacidade de filtrar o que se lê, de absorver o conteúdo com limites.

    Muito antes d’O Código Da Vinci, Umberto Eco escreveu, ainda na década de oitenta, O Pêndulo de Focault. Como é tradição nos livros de Eco, os temas são abordados de maneira criteriosa, investigativa e, mesmo quando envoltos pela ficção, baseados em fatos comprováveis e em exaustivos estudos.

    Por que, então, O Pêndulo de Foucault não fez tanto ou mais sucesso que O Código Da Vinci? Pela falta de acessibilidade à maioria das pessoas. Para níveis medianos ou intenções de mera diversão, estudos aprofundados são sempre chatos e tediosos. Não é o caso d’O Código. Imagine Jesus, Madalena, Isaac Newton e Amélie Poulain no mesmo barco. Vale ao menos uma espiadinha.

    A mistura de narrativa de vídeo-clipe com personagens saídos de um filme estrelado por Bruce Willis ou Morgan Freeman (nas suas concessões duvidosas em filmes policiais), torna-se muito mais atraente do que informações levadas às últimas conseqüências do academicismo.

    O Pêndulo é cultura, O Código não. Um informa, outro apenas diverte – o que não quer dizer que o primeiro não divirta. O lado negativo é dar ao leitor a impressão de ter repassado, em cada página, fatos concretos, subjugados pela retórica e pela sedução do tema.

    Cabe ao autor um mínimo de responsabilidade. Ao leitor, bom senso e informação. Bom senso para concordar que o filme nada mais é do que o retrato fiel do livro. As arestas ficam por conta da capacidade imaginativa de quem lê, moldando cada personagem ao seu bel prazer e, claro, ignorando as falhas gritantes de um roteiro que não soube reaproveitar personagens e ganchos excitantes.

    Tom Hanks, como o investigador Robert Langdon, e Jean Reno, como o policial Bezu Fache, beiram o ridículo em suas atuações. Basta ver a expressão de Hanks ao informar à eterna Amélie, Audrey Tautou, que ela é a descendente de Cristo. A expressão cairia bem ao ex-Forrest Gump caso dissesse que havia derrubado um pacote de biscoitos.

    O Bispo Aringarosa, vivido por Alfred Molina, chega a nos compadecer com sua imagem perdida, ausente, como se tivesse acabado de passar na calçada do estúdio e fosse raptado para filmar no set.

    O didatismo do filme irrita, mas levando em consideração a quantidade de pessoas que não leram o livro e, mesmo assim, foram incensados por sua repercussão, vê-se a utilidade da estratégia. E convenhamos, foi uma boa idéia ver alguns fatos do passado retratados como em “hologramas” nas cenas atuais.

    O mais enfadonho, e é aí que se comprova a superficialidade com a qual os temas do livro são abordados, é justamente a reviravolta à espreita em cada cena. Alguns personagens, como Leigh Teabing, vivido pelo competente Sir Ian McKellen, parecem ter sido jogados dentro da trama apenas para validar as explicações mirabolantes que o autor tem a dar como se fossem fatos.

    Ironicamente, é de McKellen a atuação mais caprichada. O roteiro não acompanha, nem de longe, a quantidade de informação à disposição do leitor/espectador. Damo-nos conta disso quando percebemos que, em poucas horas, Langdon saiu de uma palestra bem interessante sobre simbologia para descobrir um grande mistério da humanidade, ali, bem embaixo dos seus pés.

    Se as quase três horas de filme cansam, vale como consolo a sequer cogitação de Peter Jackson na direção. Imagine uma corrida de dinossauros no Louvre. Por Alá, o que sobraria da Monalisa?

    No mais, saímos do cinema, mesmo após o afinco com que os protagonistas se dedicam ao tema, sem saber de muita coisa. O que Leabing afirma, Sophie repete, Landgon duvida, mas no fim todos concordam.

    Vale pelas seqüências no Louvre, pelo detalhe de algumas obras de arte, mesmo acompanhadas de uma trilha sonora claudicante. Além, claro, da certeza de que o albino autoflagelante com lentes de contato azuis e cabelo descolorido com água oxigenada é primo legítimo do diabo retratado em A Paixão de Cristo, de Mel Gibson.

    Mas aí são outros quinhentos. E, obviamente, milhares de possíveis teorias conspiratórias. Fetiche de usuários do Google. O Código Da Vinci não é nada mais do que isso. Mas se você se diverte, enfim, que problema há nisso?

    Wednesday, May 17, 2006

    Fio a fio

    - É curioso. Ou não. Mas eu só consigo perceber o avanço da medicina quando faço uso de corticóides e/ou antibióticos. Estive num desconforto imenso esses dias por causa de uma infame virose. Poucas horas depois de aplicá-los, podia jurar que nada havia me ocorrido. Corticóides e antibióticos. Pelo conforto e rapidez nos efeitos, são na minha mente mazelada o que há de mais moderno na medicina.

    - É estranho como há algo dentro de mim que às vezes comemora o número de suspeitos mortos no conflito da polícia com o PCC em São Paulo. Mas não posso dar espaço a isso. Seria legitimar a barbárie, justificar o caos com mais caos. Pena de morte? Bobagem. Qualquer bandido já sai de casa todos os dias com a sentença de morte anunciada na testa. A morte é rotina pra eles. Não surte efeito legalizá-la.

    Por mais assustador que seja ver uma foto da Avenida Paulista vazia às oito da noite, não deixa de ser interessante ver transferida a realidade de qualquer periferia dominada pelo crime para o centro financeiro do país, onde se decidem muitos futuros, inclusive o da periferia. O que se viu na Paulista é o que se vê em qualquer favela com toque de recolher corriqueiramente.

    Ler Mônica Bérgamo relatando a decepção do high society paulista por ter que adiar algumas festas caríssimas e perder algumas garrafas de champagne que já estavam "no gelo" em plena crise é perceber o fosso em que nos encontramos. Não pelo ato de relatar, mas pelo que se relata.

    Ricaços, façam alguma coisa! Não se vive por muito tempo encastelado num mundo paralelo. Um dia eles vão sair dos buracos, descer dos morros e mostrar o que nós produzimos com tanta indiferença. E pior: que não há nada mais democrático no mundo do que o medo.

    - Como pinto no lixo. Tá certo que com um atraso de meses em relação aos grandes cinemas do país, mas e daí? De uma tacada só: "Boa Noite, e Boa Sorte", "Todas as Crianças Invisíveis", "Missão Impossível III", "Match Point - Ponto Final" e revi, com a "administradora", "Terapia do Amor". Vamos aos fatos:

    * Boa Noite, e Boa Sorte: Filmaço. Perdi de vez os últimos décimos de preconceito contra Clooney. O filme é um primor de direção, fotografia, direção de arte. Tudo muito caprichado, com ótimas edição e montagem, sem contar o roteiro impecável. Vá lá, fatos como os retratados ajudam e muito, mesmo assim não sobrepõem a boa produção.

    Os editoriais de Edward Murrow contra a inquisição moderna americana parecem ter sido escritos ontem. O que prova mais uma vez, que os problemas são sempre os mesmos, só mudam de cor e tamanho. Cor aliás, que dá um charme noir a película.

    O que se retrata no filme é mais uma prova de como apesar de tudo e todos, há nos EUA uma capacidade de mudança e síntese de idéias fantástica. Faz-se das piores coisas, critica-se com a maior das classes. Ah, e ainda tem Ava Gardner...

    * Todas as Crianças Invisíveis: Cansativo. Sete curtas metragens mostrando situações dolorosas para crianças ao redor do mundo. Spike Lee cru como sempre, mas com um ar amadorístico na produção, dispensável. Não usou o aparato caprichado dos Scott Brother's, mas poderia ter lançado mão, não tiraria a lascinante idéia do seu roteiro.

    Esperei mais de Kátia Lund. Não por "Cidade de Deus", mas pelo leque de opções que o Brasil oferece nesse campo.

    Gostei de Emir Kusturica. Fanfarrão, lúdico e sabendo usar o humor para mostrar a dor. John Woo é piegas de dar dó. Pouco recomendável para diabéticos o roteiro dele. O que poderia ser caprichado, virou brega de doer. O que não acontece com Stefano Veruso, o diretor italiano. A história de Ciro além da belíssima fotografia, tem bom roteiro e um protagonista promissor.

    * Missão Impossível III: Melhor que o anterior da trilogia. Philip Seymour Hoffman impecável. Tom Cruise com alguns tiques nervosos que sobraram de Guerra dos Mundos. Pra quem quer ação, não há do que reclamar. É barulho pra dar e vender, sequências muito bem sicronizadas e uma cena irada: Cruise lendo os lábios do seu superior. Pipocão dos bons. Não tem arte, não tem explicações filosóficas, clichê do início ao fim, mas é a isso que se propõe o filme, não é mesmo?

    * Match Point - Ponto Final: Acho que nunca vi Allen tão à vontade filmando fora de NY. A viagem que a câmera faz por Londres e seus lugares não-turísticos, comuns a quem vive lá é saborosa. Assim como Scarlet Johansson, transbordando lábios, peitos e calor. Um duelo constante e prevísivel - nem por isso menos charmoso - do mais apurado conservadorismo inglês, com o despudor americano. Quase uma Jane Austen envenenada em sua luta romântica de classes.

    O roteiro é bem "novela da Globo", tramas previsíveis, mas sempre com o humor ácido de Allen pondo o dedo em riste na cara de alguém. As mulheres podem sair do cinema putas com a forma que são retratadas: histéricas, burras e descontroladas. O final vale o ingresso. É Allen, por menos grandioso que seja como antigamente, antes ele do que qualquer roteiro vagabundo por aí.

    - Washing Machine, do Sonic Youth, é das coisas mais sublimes que uma banda poderia ter produzido em cinco décadas de rock and roll.

    - Frederic Boilè, o francês dos mangás mais charmosos do mundo volta com tudo em "Garotas de Tóquio". Vale o investimento. Caso ainda não conheça o cara, comece por "O Espinafre de Yukiko". Putarias orientais e bolinações discretas.

    - Sim, vou ver "Código Da Vinci" sexta-feira.

    - Compre, baixe, faça o que for mas não deixe de ouvir: The Back Room - Editors, Versus - Kings of Convenience.

    Extra: E já que eu falei do Sonic Youth, por que não ouvir a melhor música do disco Washing Machine?
  • Clique aqui
  • e faça o download de Diamond Sea.